Paulo Guedes

Agora quem pede água é a Espanha. As estimativas de socorro financeiro para evitar o colapso do sistema bancário espanhol estão em torno de cem bilhões de euros. O que não é muito, e deverá ser concedido, quando se considera que a Espanha é a quarta maior economia da Zona do Euro. A Irlanda tomou 85 bilhões de euros em 2010, Portugal recebeu 78 bilhões em 2011. E a Grécia levou 110 bilhões de euros em 2010, mais 130 bilhões em 2012. Além disso, enquanto a Espanha tem promovido austeridade e reformas, a esquerda radical grega ameaça deixar o euro se vencer as eleições no próximo domingo.

A Espanha é a crise contemporânea em todas as suas dimensões. Seus arquétipos são conhecidos. Os financistas
quebraram os bancos com a farra do crédito, à base de alavancagem excessiva. E os políticos quebraram os governos e congelaram os mercados de trabalho com as práticas populistas, obsoletas e financeiramente irresponsáveis dos social-democratas. Até que a cobra engoliu o próprio rabo.

Anquanto a Espanha tem promovido austeridade e reformas, a esquerda radical grega ameaça deixar o euro se vencer as eleições no próximo domingo

Os bancos não podem mais comprar títulos públicos para rolar dívidas dos governos nacionais porque os riscos soberanos em alta trazem pesadas perdas de capital ao sistema financeiro. E os governos nacionais não podem mais socorrer seus bancos porque fariam disparar ainda mais seus riscos soberanos e os custos de rolagem de suas dívidas públicas. Afinal, suas finanças já foram exauridas por décadas de demagogia social-democrata.

Só analistas ingênuos acreditam que a quebra do Lehman Brothers foi a causa da grande crise financeira que se abateu sobre a economia americana. É claro que o excesso de endividamento permeava todo o universo financeiro após anos de expansão abusiva do crédito. A quebra do Lehman Brothers foi apenas um dos inúmeros gatilhos que poderiam disparar a ameaça de contágio bancário. Qualquer fósforo riscado em um paiol de pólvora o faria explodir. Do outro lado do Atlântico, a emergência do euro como moeda continental estimulou a expansão excessiva do crédito e revelou também os abusos da classe política europeia contra os orçamentos públicos.

Mais e mais, percebe-se que a grande crise contemporânea reflete um atentado de financistas e políticos contra o regime de moeda fiduciária e a sustentabilidade financeira das redes de solidariedade social, pilares da modernidade na longa história evolucionária da civilização ocidental.

Fonte: O Globo, 11/06/2012

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