As aventuras de Pedrinho no banco dos réus

A agenda do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, é apertadíssima. Mesmo assim, na terça-feira passada, Fux saiu do plenário diretamente para seu gabinete, onde recebeu um grupo de advogados em audiência, às 19h30.

No centro do debate, a tentativa de encontrar uma solução de consenso para uma ação que pretende banir da rede pública de educação o livro “As Aventuras de Pedrinho”, de Monteiro Lobato.

A ação se baseia em passagens sobre a personagem Tia Nastácia, que os autores consideram racistas. Nastácia era a cozinheira do Sítio do Pica Pau Amarelo, onde Pedrinho e Narizinho, netos de Dona Benta, passavam férias em companhia da boneca Emília e de alguns outros personagens memoráveis.

O nacionalista Lobato, que escreveu “As Aventuras no início dos anos 1930”, era um revolucionário com ideais conservadores. Crítico da Semana de Arte Moderna de 1922, escreveu sobre a pintora Anita Malfatti uma crítica tão violenta que deixou marcas profundas na personalidade frágil da artista.

Essa passagem não enobrece a biografia de Lobato, mas até aqui ninguém o havia acusado de racista. As partes não chegaram a um acordo e uma nova reunião (desta vez, felizmente, sem a presença do ministro) foi marcada.

A ação é exemplar e reflete o velho hábito nacional de punir as gerações do futuro para acertar contas com o passado

A ação é exemplar e reflete o velho hábito nacional de punir as gerações do futuro para acertar contas com o passado. Banir qualquer obra de Monteiro Lobato do currículo escolar pode ser o primeiro passo para implantarmos no Brasil uma espécie de Index Prohibitorum das obras literárias. Daqui a pouco vai ter gente defendendo a proibição dos poemas Nega Fulô, de Jorge de Lima, e Irene no Céu, de Manuel Bandeira.

Ou de romances como “Viva o Povo Brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, onde o personagem Amleto Ferreira usa de expedientes bizarros para travestir em nobreza sua ascendência escrava. Ou, ainda, “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, onde os jagunços de Riobaldo Tatarana, perdidos no Liso do Sussuarão, confundem com um macaco um jovem negro com problemas mentais e o matam para saciar a fome.

São episódios que jamais pretenderam reduzir a importância da raça negra e de sua contribuição para o Brasil. Mas que, exatamente como acontece em Monteiro Lobato, fornecem um retrato de um processo social que tem sua origem numa tragédia conhecida (a escravidão) e um desfecho que só acontecerá no dia em que, em lugar de olhar para o passado, olharemos para o futuro.

E, em lugar de defender a política racista das cotas nas universidades e no serviço público, se passe a exigir ensino público de qualidade para negros, causasianos, orientais, mulatos, cafusos e mamelucos. Só assim o Brasil evoluirá na direção de uma sociedade capaz de distribuir as oportunidades de forma igualitária.

Fonte: Brasil Econômico, 13/09/2012

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1 comment

  1. fabio nogueira

    Em primeiro lugar,não queremos censura já passamos por issoe sentimos o gosto amargo desse rémedio tão agressivo.

    Em segundo o autor Monteiro Lobato,para sempre estará reverenciado como uns dos melhores escritores do Brasil.

    Em terceiro,lamento o ewcritor foi sim,um racista.

    Em seu livro Raça Pura,Pietra Diwan relata que Monteiro era um Eugenista e o fsto do Brasil ser um país mestiço era de total repugnancia para o mesmo.

    E bom deixer isso claro. Os livros não podem ser censurados e nem alterados,mas,devem informar qual era e é o pensamento da sociedade daquela época.