Brasil, Brasil

Escrevi um livro chamado “O que faz o Brasil, Brasil?” e descobri que muita gente lia o seu bizarro título como “O que faz do Brasil, Brasil?”. Nele, eu confrontava um “brasil” como espaço geográfico e um “Brasil”, um coletivo que legisla sobre si mesmo. Num nível mais complexo, eu queria confrontar – num momento difícil, pois o livro veio à luz em 1984 – práticas sociais seculares tidas como inocentes (amizade, comida, festas, trabalho, religiosidades) mais do que as instituições recorrentes nas conceituações do Brasil, as quais teimavam em reduzi-lo a Estado e a “governos” propondo, nas entrelinhas, um regime ideal a ser um dia milenariamente realizado.

Daí, talvez, o tema da conspiração, o qual, ao lado da comida, do futebol, do fuxico, da “versão verdadeira”, do compadrio e do carnaval, é um dos traços mais constantes das representações do Brasil. Dela surge a crença na inveja, no “mau-olhado”, como provam as pulseirinhas usadas pela presidente Dilma, que, suponho, deve ser materialista.

Cresci ouvindo conspirações. A primeira era a do Diabo contra a castidade. O erotismo nas suas formas mais banais revelava a presença do Demo em nossos pobres banheiros que só tinham água fria. O Diabo deturpava nossos pensamentos e, tal como a presidente Dilma disse para os jornalistas, manipulava os nossos sentimentos. De fato, na hora de dormir, pensávamos na Gabriela e, em vez dela surgir no seu vestido rendado, ela aparecia nua, denunciando o pecador oculto dentro do rapazinho inocente.

Um dia, conversando sério com um amigo, pensamos em amputar nossas mãos. Ele havia feito a tentativa de paralisá-las, mas o resultado promoveu um pecado ainda mais delicioso, porque “minha mão parecia ser de outra pessoa!”, disse num lamento.

Mais tarde, já frequentando um curso de História que, diziam, não levava a coisa alguma e era destinado a incapazes e mocinhas, um colega mais politizado – um realista – me ensinou como os Estados Unidos tinham um plano conspiratório contra o Brasil, o qual era encabeçado por Gene Kelly, Donald O’Connor e Debbie Reynolds por meio de um manifesto chamado “Cantando na Chuva”.

Quero, isso sim, ajudar a ver o Brasil ‘inocente’ cara à cara com o das conspirações

O mundo não era o que eu via, era um lugar de conspirações e deturpações. De lutas veladas do Bem contra o Mal em suas mais diversas encarnações, e somente o confronto no espelho da “conscientização” nos livraria de uma inocência útil.

Passei, pois, de pobre pecador solitário a inocente útil coletivo, aliado inconsciente do grande demônio chamado Estados Unidos que todos nós, inclusive os meus mentores, consumíamos em filmes, moda e livros, desbragadamente.

Ainda hoje um lado meu diz que tudo conspira. De uma certa perspectiva, o filme é um mero musical, mas do ponto de vista da tela trata-se de uma maldita conspiração. Mude-se o ponto de vista e o mundo muda de figura: a música que canta o amor eterno vira ideologia. O mesmo com a pintura de Victor Meirelles, Parreiras, Pedro Américo e de Amoedo (apreciada pelo meu avô Raul) e com os livros de Machado de Assis, um dos meus mentores ideológicos que considerava um alienado porque ele não fora capaz de denunciar a “luta de classes” existente no Brasil.

Esse era um mundo de verdades e mentiras no qual víamos os problemas políticos e sociais como doenças e imposições das quais podíamos nos livrar tomando os remédios e as medidas apropriadas. Nele não havia contradição de valores, mal-entendidos, má-fé nem consequências não previstas de falas e comportamentos. Você, diziam, tem direito de fazer o que quiser, porque é livre, mas não pode casar com uma negra; não há nada de mais em adotar políticas opostas para um mesmo problema, como nada impede que o Congresso Nacional coloque na Presidência de uma Comissão de Ética um homofóbico fundamentalista. Deus só fazia o bem e o Diabo, o mal. Não se suspeitava do seu nível de interdependência, aliás, sabia Santo Agostinho.

Vivi um Brasil que desconhecia a força das pequenas coisas – das comidas, da saudade e das festas de aniversário: dos favores e dos amores. Um Brasil crente que as “criadas”, as “amas” e as “aias” eram parte da família.

Saudosismo? Nada disso. Quero, isso sim, ajudar a ver o Brasil “inocente” cara à cara com o das conspirações. Um Brasil que, pelo que vejo, ainda se pensa que pode resolver tudo pela lei e pelo decreto.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 03/04/2013

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