Chávez e o câncer de laboratório

Hugo Chávez avisou que o câncer dos líderes de esquerda na América Latina pode ser ideológico. Segundo o presidente venezuelano, a doença pode ter sido provocada por uma tecnologia secreta americana. Isso explicaria a sequência dos diagnósticos em Lula, no próprio Chávez e em Cristina Kirchner – precedidos por Dilma Rousseff e Fernando Lugo. Todos vítimas de câncer quase simultaneamente, todos amigos do povo e oponentes do imperialismo ianque.

“Muito, muito, muito estranho…”, comentou Hugo Chávez, em discurso transmitido pela TV. De fato, as coisas andam estranhas na América Latina. Em plena revolução da informação, com a internet expondo tudo a todos, o tempo todo, uma gangue populista deita e rola no continente, e o eleitorado aplaude. Essa moléstia ninguém disse ainda de onde veio. Enquanto os pais dos pobres vão recuperando a saúde, o câncer populista se espalha. Deve ter sido provocado por uma tecnologia bem mais eficiente que a dos Estados Unidos. Washington tem muito que aprender com os irmãos do Sul sobre a degeneração induzida.

Quem poderia imaginar os argentinos, talvez o povo com maior instrução per capita no continente, dando aprovação crescente a um governo que decidiu destruir a imprensa livre? Se isso não é um câncer, pode ser maldição ou hipnose coletiva. De qualquer forma, é uma tecnologia muito mais avançada do que a doença induzida em Chávez e seus companheiros bolivarianos.

A CIA nunca conseguiu, com todo o seu maquiavelismo, fazer um povo esclarecido e livre aceitar, tranquilamente, o contrabando oficial dos índices de inflação. O casal Kirchner enfiou o pé na porta do IBGE de lá, sequestrou as estatísticas e produziu um abatimento bolivariano de até 20 pontos na inflação real. Uma operação plástica mais arrojada que todas as feitas pela então primeira-dama.

O adestramento dos índices oficiais de preços foi muito importante para a Argentina dos Kirchners. Anestesiou a política de gastança desenfreada do governo, permitindo a explosão das contas públicas sem atrapalhar a propaganda progressista. Como se sabe, no longo prazo, a inflação tira dos pobres para dar aos ricos. Mas os argentinos continuam acreditando em Robin Hood. E o fenômeno da reeleição consagradora de Cristina, com a maior votação da história do país após a redemocratização, confirma a observação de Chávez: é muito, muito, muito estranho.

Cristina, a “presidenta”, não desperdiçou a bandeira da politização da mulher. Uma de suas forças eleitorais foi a condição de viúva, encarnando o símbolo de superação da fragilidade, da humanização do poder pelos atributos femininos e maternais. No ato mais marcante dessa redenção cor-de-rosa, a “presidenta” radicalizou a guerra suja contra a mídia – usando a asfixia econô-mica como meio de coação editorial. Coisa de mãe.

Os fantasmas dos generais na Casa Rosada morreram de inveja da última manobra de Cristina: cortando o mal pela raiz, ela encampou o principal fabricante de papel-jornal do país. Com essa medida delicada, poderá sabotar o fornecimento de papel aos principais veículos impressos – esses desnaturados que insistem em publicar coisas impróprias, como os índices verdadeiros de inflação.

Seria normal a opinião pública se conformar com isso, ou talvez nem chegar a saber do ocorrido, se Cristina fosse a presidente da Coreia do Norte. Mas ela preside a Argentina, um país livre, culto, onde vigora plenamente o estado de direito. E onde a popularidade da “presidenta”, com seus atentados à democracia, não para de crescer. Muito estranho.
Nem é preciso descrever o que a misteriosa moléstia do populismo causou na Venezuela. Os sintomas se repetem em todos os países amigos de Chávez e Kirchner, como Bolívia, Equador e Brasil: mistificação esquerdista, sequestro do Estado pelos companheiros, apropriação partidária das finanças públicas, busca da hegemonia pelo controle ideológico da informação.

No Brasil, o último item nem seria necessário. Depois de passar o primeiro ano de mandato sendo governada pelas manchetes e demitindo a contragosto seus próprios parasitas, Dilma Rousseff entra em 2012 como moralizadora nos braços do povo. Isso é muito mais estranho que epidemia de câncer.

Fonte: Época, 09/01/2012

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