Cinco pontos estratégicos

As lideranças políticas do Brasil têm de ser muito transparentes sobre quais são os grandes desafios estratégicos do país e oferecer à população a medida do que deve ser feito para a superá-los.

O grande momento da liderança de Churchill durante a Segunda Guerra Mundial, quando disse ao povo britânico que não tinha nada a oferecer “a não ser sangue, suor e lágrimas”, implicava a dimensão do sacrifício, do desafio. Pensemos em cinco frentes. Precisamos, antes de mais nada, saber o que queremos ser: um país mais do presente ou mais do futuro.

Se a resposta for mais do futuro, teríamos de diminuir a composição dos nossos gastos públicos e aumentar a poupança nacional – precisamos sair de 18% do PIB para algo próximo de 23% a 25%.

Esta evolução só será possível com sacrifício. Seria necessário reorientar demandas sociais e, feliz ou infelizmente, redimensionar o setor público no Brasil, o que, provavelmente, faria o país ter de conviver com uma taxa um pouco maior de desemprego estatal.

Em segundo lugar, precisaríamos reorientar os tributos no Brasil para que mais recursos viessem a permanecer no âmbito dos segmentos que, de fato, constroem a riqueza: as empresas.

Para fazer isso, teríamos de reposicionar, e este é o terceiro ponto, a relação capital/trabalho no Brasil. O trabalho no país é caro e também pouco produtivo – e isso não é culpa do trabalhador. Tudo essencialmente se atravanca pela malha de burocracia e impostos também em torno da atividade laboral.

Em quarto lugar, precisamos de outros mecanismos de incentivo para a internacionalização da pequena e média empresa do Brasil. Nosso país tem 200 milhões de pessoas, mas conta apenas com 10 empresas multinacionais. A Suécia é um país de 10 milhões de habitantes, com 200 empresas multinacionais.

Precisamos inundar o Brasil com capital disponível para empreendedores tecnológicos

Quanto maior o grau de internacionalização das empresas brasileiras, maior também é a competitividade. Sendo assim, são necessários mecanismos de incentivo para o Brasil seguir essa linha de produtividade.

A quinta e mais importante condição para aplicação de recursos é a de que, em se fazendo esses sacrifícios nas áreas fiscal, pública e trabalhista, teríamos de redirecionar recursos excedentes para a pesquisa e o desenvolvimento; para ciência e tecnologia.

Precisamos inundar o Brasil com capital disponível para empreendedores tecnológicos. Só assim a produtividade no país irá aumentar porque o grau de componentes tecnológicos da economia brasileira será elevado.

Daí, pode-se perguntar: para atender a estas condições – transparência nas relações governo e sociedade, reorientação tributária e trabalhista, internacionalização das empresas brasileiras e redirecionamento de recursos excedentes para pesquisas, desenvolvimento e inovação -, haverá sacrifício? Sim, sem dúvida. As alterações demandarão sacrifício.

Mas é verdade também que os três setores nos quais o Brasil apresenta vantagens comparativas – agronegócio, biocombustíveis e petróleo em águas profundas – são capazes de nos gerar recursos excedentes para que esse sacrifício não apenas seja menor, mas também menos duradouro.

Se o Brasil fizer isso, será uma das sociedades mais dinâmicas nos próximos 30 anos. Já se não o fizer, vamos continuar como uma sociedade mediana, sempre gerando resultados abaixo do seu potencial.

Fonte: Brasil Econômico, 22/05/2013

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2 comments

  1. Gilberto Naldi

    Parece-me que o Brasil tem medo do futuro! O Governo sempre de olho no ” eleitorado” nos remete ao passado! A solda atual entre demagogos, centrais sindicais cooptadas e indústria de média e baixa tecnologia forma a âncora fascista que detém o avanço do país!

  2. geraldnovais

    Não é medo de futuro, é um conjunto de coisas. A principal é o medo da populacao de se arriscar a deixar de ser independente do governo e se valorizar sendo mais empreendedora e corajosa, além de deixar esses caçiques da política de lado