Demografia (V): natureza sábia

Nesta série de 12 artigos mensais com os quais estou tendo meu diálogo com os leitores neste ano, dou continuidade aos temas demográficos que pretendo compartilhar com o público no ano em curso. Depois de ter abordado o fenômeno do envelhecimento demográfico como característica universal, da mudança de perfil etário do Brasil, da importância da revisão populacional feita pelo IBGE em 2008 e de ter analisado os dados do Censo de 2010, hoje quero dividir com os leitores um assunto menos polêmico, na forma de uma curiosidade que só recentemente chamou minha atenção e que julguei interessante trazer para este espaço. A curiosidade é a maior intensidade na frequência de nascimento de meninos em relação a meninas.

A internet é um território livre e qualquer um pode escrever o que quiser, com chances de vir a ser posteriormente lido em espaços de busca como o “Google”. Quem clicar nele a pergunta “Por que nascem mais meninos que meninas?” vai encontrar muitos links para satisfazer a sua curiosidade, assim como no caso de perguntar o oposto: “Por que nascem mais meninas que meninos?”. Essa é uma prova cabal de como no mundo de hoje qualquer pesquisa feita na internet precisa ser submetida a certo filtro, para separar o que tem fundamento daquilo que não passa de uma grande bobagem.

A realidade é incontestável: nascem mais meninos do que meninas. É assim e era assim antes

A tabela mostra a composição da população brasileira por faixa etária e fazendo a decomposição por gênero. O padrão que se observa reflete uma realidade que pode ser verificada quando a abertura é feita por Estados e corresponde também a um padrão observado em outros países. A realidade é incontestável: nascem mais meninos do que meninas. É assim e era assim antes, razão pela qual a maior proporção de meninos na primeira infância em relação às meninas também se verifica na faixa etária imediatamente superior à que vai de 0 a 4 anos.

À medida que se avança na faixa etária, essa proporção vai se modificando. Em outras sociedades, essa equiparação se dá em estágios mais avançados. No Brasil, onde há uma incidência não negligenciável de “causa mortis” associada à violência no grupo dos jovens de sexo masculino, a vida de alguns homens jovens começa a ser “ceifada” a partir da adolescência e, já no grupo de 20 a 24 anos, os antigos meninos (então adultos) se equiparam em número às mulheres dessa faixa. A partir daí, as doenças mais tipicamente masculinas, que afetam mais a taxa de mortalidade dos homens mesmo em idades precoces (com destaque para problemas cardíacos) cobram seu preço e o peso das mulheres vai aumentando, até se tornar esmagadoramente maior na faixa superior, de 80 anos e mais.

Na preparação deste artigo, procurei fazer o meu “dever de casa” e tentar entender as razões biológicas desse fenômeno, mas confesso que fracassei. Consultei, além da internet, amigos médicos e conhecidos do ramo da biologia e não consegui identificar – talvez por deficiência minha, por ser tema alheio à minha área de especialização – uma razão científica clara para esse predomínio de gênero nos primeiros anos da vida.

Como leigo em questões de biologia e genética, mas com alguma quilometragem na discussão de temas previdenciários e frequentando a área da demografia vizinha a essa temática, entendo porém que, seja qual for a explicação técnica para tal fato, a Mãe-Natureza age inteligentemente ao proceder dessa forma: como nascem mais bebês homens que mulheres e morrem mais jovens e adultos homens que mulheres, há uma compensação que mantém certo equilíbrio nas sociedades. Com efeito, considere-se que no Brasil como um todo o número de homens de todas as idades é inferior em 4 % ao de mulheres. Se os homens não tivessem essa hegemonia inicial, o quadro ficaria ainda mais desequilibrado. Mesmo nascendo mais meninos, no grupo com 80 anos e mais, para cada homem há 1,6 mulheres que sobrevivem até essa idade. Portanto, a Natureza é sábia fazendo as suas escolhas.

Fonte: Valor Econômico, 15/05/2013

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1 comment

  1. carlos

    Nasce mais homens por causa do espermatozoide que carrega o cromossomo y – ele é mais rápido do que o x (feminino), porém ele é mais sensível, existem estudos que em lugares poluídos há mais bebês mulheres, pois o y é afetado pela poluição e há uma diminuição.
    o X é mais lento porém mais resistente.