Rolf Kuntz

A presidente Dilma Rousseff converteu o Velho do Restelo, uma das grandes figuras camonianas, um homem de “saber só de experiências feito”, em um petista enrustido. Na descrição dilmiana, “esse velho ficava sentado na praia azarando” e repetindo, diante de toda experiência nova, uma frase agourenta: “Não vai dar certo”. Era uma figura do contra, como os opositores da Constituição de 1988, do Proer (depois apontado ao mundo como exemplo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva), do Plano Real, do pagamento da dívida pública e, naturalmente, da Lei de Responsabilidade Fiscal. Não se sabe se a presidente leu “Os Lusíadas” ou se apenas ouviu a história, resumida toscamente, quando passou pela praia do Restelo, em sua recente viagem a Portugal. Se leu, entendeu mal, reduzindo o enredo e uma grande figura às dimensões de uma visão chinfrim, injusta em relação ao poeta e àquele personagem.

Camões descreve o velho com respeito e atribui-lhe um discurso bem articulado e com argumentos ponderáveis. A multidão está na praia para assistir ao início de mais uma expedição a um mundo quase desconhecido. A cena ganha movimento e vida com o destaque de algumas personagens, a mãe chorosa, a esposa desconsolada (“nosso amor, nosso vão contentamento,/ quereis que com as velas leve o vento?”) e, finalmente, a figura de aparência veneranda, “postos em nós os olhos, meneando/ três vezes a cabeça, descontente,/ a voz pausada um pouco alevantando”. Não era um tolo nem um letrado, mas um homem “cum saber só de experiências feito”.

A peroração do velho ocupa as dez estrofes finais – 80 versos, portanto – do quarto canto do poema. Em nenhum momento ele dá como certo um fim trágico para os navegantes, embora aponte os perigos e lamente “o desprezo da vida”. É outro o assunto da maior parte, a mais importante, de sua fala. Ele pergunta, em resumo, se vale a pena o esforço para conquistar mares e terras distantes e cheios de perigos em vez de proteger Portugal dos inimigos vizinhos e de explorar, mesmo com a guerra, as oportunidades mais próximas. “Não tens junto comtigo o Ismaelita/ com quem sempre terás guerras sobejas?” Depois, referindo-se ao infiel: “Não tem cidades mil, terra infinita,/ se terras e riquezas mais desejas?” É um raciocínio estratégico. Não seria mais vantajoso proteger o reino da ameaça próxima e, se fosse o caso de ampliar os domínios portugueses, tentar a conquista das “cidades mil” e da “terra infinita” dos seguidores do Alcorão? Essa alternativa atenderia também a quem desejasse a glória da guerra e da vitória contra um adversário de respeito: “Não he elle por armas esforçado, se queres por victórias ser louvado?”.

Em sua versão do episódio, a presidente Dilma Rousseff menciona a fala do velho sobre a motivação da vã glória. Mas passa longe, mais uma vez, do significado da peroração. As primeiras palavras têm um tom moralista. “Ó glória de mandar! Ó vã cobiça desta vaidade a que chamamos fama! (…) Que mortes, que perigos, que tormentas/ que crueldades neles exp’rimentas!” Mas o discurso logo incorpora outras preocupações: “Dura inquietação da alma e da vida,/ fonte de desemparos e adultérios,/ sagaz consumidora conhecida/ de fazendas, de reinos e de impérios! (…) Chamam-te fama e glória soberana,/ nomes com que se o povo néscio engana”.

Em linguagem menos poética: fama e glória têm custos e esses custos podem ser – e são com frequência – muito elevados. Os versos mencionam “fazendas” (patrimônio), “reinos e impérios”. Adiante, a argumentação é ampliada, com a referência ao perigo dos ismaelitas e às possibilidades de conquistas em áreas mais próximas. Ao discutir a aventura em mares e reinos longínquos, o velho confronta a iniciativa mais ambiciosa e arriscada com uma política alternativa, mais prudente em sua opinião. Não se trata de mero pessimismo ou de mania de ser do contra. Sem forçar a interpretação, pode-se descrever o discurso do velho como um exercício no campo das decisões estratégicas e da alocação de recursos. Com um saber derivado só da experiência, ele demonstra, no entanto, uma capacidade respeitável de refletir sobre os interesses do reino e sobre a necessidade de cálculo e de prudência. De nenhum modo Camões despreza esse tipo de sabedoria. No primeiro verso do canto quinto, a figura da praia ainda é lembrada como um “velho honrado”.

Não há resposta direta ao discurso de advertência. A resposta indireta é o poema todo, como celebração da audácia e da glória dos navegadores, sintetizada na proeza de Vasco da Gama, e da grandeza de Portugal. Talvez os defensores da grande aventura marítima tivessem razão naquele momento. No longo prazo, no entanto, a história parece ter realçado a sabedoria do velho.

No mínimo, teria sido prudente conciliar a ousadia dos descobrimentos e da conquista dos mares com a modernização e o fortalecimento econômico do próprio reino. A Inglaterra, núcleo da revolução industrial no século 18, continuou sendo a grande potência europeia depois de perder as 13 colônias americanas.

Portugal perdeu o brilho muito antes da independência de suas últimas colônias na África. De certa forma, a história econômica portuguesa recomeçou com o ingresso na União Europeia e com o empuxo dos investimentos financiados pelo bloco.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 17/06/2013

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