Nos últimos dias, depois de um discurso mais contundente de Alexandre Tombini no Seminário sobre Sistemas de Metas de Inflação, as projeções para a taxa de juros na reunião do COPOM, dias 28 e 29 de maio, passaram por uma revisão.

Muitos acharam que, com a retirada do termo “agir com cautela” por “agir tempestivamente no controle da inflação”, o BACEN estaria sinalizando uma postura mais agressiva no balizamento da taxa de juros. Aumentaram então as apostas por um aperto mais forte nesta reunião em 0,5 ponto percentual, a 8,0%, e não mais 0,25 ponto percentual, a 7,75%, como pensavam antes a maioria.

Nós da Lopes Filho, porém, mantemos nossa estimativa, acreditando no gradualismo do BACEN. Nossa estimativa segue mantida em mais dois ajustes de 0,25 ponto percentual neste ano, a 8,0%, e mais um no início do próximo, com a taxa fechando 2014 a 8,25%. Mas afinal, o que significaria o termo “agir tempestivamente”, que gerou tanta celeuma nos mercados? Significa, na nossa visão, que a autoridade deve atuar “no momento que julgar necessário” para elevar o juro. Dito de outra maneira, o BACEN continua vigilante no balizamento da taxa de juros, a partir do comportamento dos indicadores doméstico e no transcurso do cenário internacional.

No cenário doméstico, até observa-se certo desanuviamento, com muitos vendo exagero na postura dos investidores diante dos eventos recentes. As intervenções do governo em setores da economia foram danosas às expectativas dos agentes econômicos mas, recentemente, observou-se uma postura mais autônoma do BACEN, ao “assumir o leme” do controle da inflação, além do silêncio obsequioso da Presidente e do ministro Guido Mantega. Uma nota fora do tom talvez tenha sido a saída de Nelson Barbosa do ministério. Homem ligado a Mantega, este vinha se desentendendo com Arno Augustin que, na opinião de muitos, deve ganhar espaço entre os conselheiros da Presidente.

Sobre o cenário mais desanuviado citado acima, destaquemos a inflação cedendo nas últimas semanas, a economia retomando lentamente, a bem sucedida captação externa da Petrobras, de US$ 11 bilhões, além dos leilões nos campos de petróleo, retomados em maio, gerando forte demanda dos investidores externos.

Por outro lado, fatos ocorridos na semana passada colocaram mais pressão sobre o comportamento da inflação. Pelo lado fiscal, o governo anunciou o Orçamento para 2013, sinalizando “frouxidão anticíclica”; pelo lado do setor externo, em abril o saldo em conta corrente foi negativo em 3,0% do PIB nos 12 meses (US$ 70 bilhões), maior patamar em muitos anos, com os investimentos externos diretos insuficientes para financiá-lo. Vejamos então estes fatos para tirar nossas conclusões sobre a trégua recente nos mercados.

Na revisão orçamentária para 2013, algumas variáveis acabaram revisadas: as despesas públicas, de custeio e investimentos, foram a R$ 937 bilhões, 19,2% do PIB; e a arrecadação federal acabou revisada para baixo, de R$ 1,25 trilhão para R$ 1,18 trilhão, com corte de R$ 67,8 bilhões, jogando o saldo primário deste ano, contando as desonerações e investimentos do PAC, de 3,1% para 2,3% do PIB, de R$ 108,1 bilhões para R$ 63,1 bilhões.

Boa notícia foi que o governo pretende bloquear R$ 28 bilhões em despesas, cortar 65% das emendas dos parlamentares e estimular os investimentos em 15%. Estes com o “carimbo do PAC” acabaram preservados, assim como os programas sociais e os direcionados para Ciência e Tecnologia. Isto significa que a política fiscal ativa, pelo menos no papel, se manteve mais focada nos investimentos e não na manutenção da máquina pública.

Uma observação, que torna estas estimativas muito mais uma “obra de ficção” do que realidade, é que estas serão sustentadas por um crescimento que dificilmente deve se materializar, em torno de 3,5%. Com muito otimismo, o PIB de 2013 deve crescer entre 2,5% e 3,0%, com a Lopes Filho & Associados projetando 2,9%.

Já o saldo em conta corrente acabou assustando, ao chegar a 3,0% do PIB em 12 meses, com grande contribuição do déficit comercial, aumento de remessas de lucros e dividendos e das viagens internacionais da nossa classe média emergente.

No acumulado ao ano, o saldo em conta corrente chegou a US$ 33,17 bilhões, com os investimentos externos diretos bem abaixo (57% deste total), com ingressos líquidos em US$ 19,97 bilhões. Em 12 meses, estes se encontram em torno de US$ 64,11 bilhões, 91,5% do desequilíbrio externo de US$ 70 bilhões. No curto prazo, este desbalanceamento não preocupa, visto que possuímos um “colchão de reservas” em torno de US$ 350 bilhões e captações sendo feitas, mas mantidas as atuais condições de temperatura e pressão, no chamado ceteris paribus, podem ser um problema no longo prazo.

O fato é que no desempenho destas duas variáveis, observa-se o modelo baseado no consumo “cobrando seu preço”, com excessos no consumo do governo e no setor privado. O primeiro, aumentando as despesas de custeio e investimento, mesmo com melhoria de qualidade, mais focados nos investimentos, e o segundo, se refletindo na piora da balança comercial e no aumento das viagens internacionais. Com isto, os saldos, primário e em conta corrente, seguem se deteriorando, como observado no gráfico ao fim.

Isto decorre da insuficiência de poupança interna, dado o excesso do consumo interno, elevando o déficit em conta corrente, pela necessidade de poupança externa, além do aumento do consumo do governo, na maioria, para manter a máquina pública. Se este resulta do aumento de investimentos, sem problemas. Caso contrário, continuaremos tendo a inflação de demanda, por insuficiência de oferta, sempre à espreita.

Concluindo, vendo estes números e os últimos movimentos do governo, observa-se total falta de coordenação da equipe econômica no uso do mix de políticas econômicas. De um lado, tem-se a Fazenda forçando a mão sobre as políticas anticíclicas, com forte aumento de despesas; do outro, o BACEN sobrecarregado na tarefa de dosar a política de juros para segurar o consumo do setor privado. Reflexo deste desbalanceamento, temos mais inflação.

Para este ano estamos revendo o saldo negativo em conta corrente em US$ 70 bilhões, com os investimentos externos diretos próximos a US$ 65 bilhões, e o saldo primário próximo a 1,6% do PIB. Isto significará piora da dívida líquida do setor público, mantida estável em 35% do PIB, caso o saldo primário esteja próximo a 2%.

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