“Vejo o futuro repetir o passado”

Julio Hegedus

O título acima, trecho de uma música do cantor Cazuza, nos conduz ao que acontece nos EUA, com a paralisia da máquina pública, já tendo ocorrido em outros momentos. Isto tudo por causa do impasse político entre republicanos e democratas, se descolando de motivações econômicas, restrito ao que Obama chamou de “encruzilhada ideológica”. De um lado, os republicanos contra a intervenção do Estado, do outro, os democratas, mais keynesianos, aceitando estas intervenções sob certas circunstâncias.

Voltando ao título, o impasse agora versa sobre o limite do endividamento público e sua ampliação. Desde 1976, outros imbróglios parecidos aconteceram como no governo Ronald Reagan, no governo Clinton, entre 1995 e 1996, e no verão norte-americano de 2011, quando este embate político chegou as “raias da irresponsabilidade”, sobre o limite de endividamento, mesmo tema atual. Algumas variantes, no entanto, precisam ser destacadas, ao comparar com o passado.

O que está acontecendo? Iniciamos outubro nos EUA sob o impacto da chamada “paralisia parcial” da máquina pública, no chamado shotdown. Como o Orçamento norte-americano começa no ano fiscal do dia 1/10 ao dia 31/9 do ano seguinte, os republicanos resolveram não votá-lo, obrigando o governo a paralisar parte das suas atividades básicas (35%). Com isto, cerca de dois milhões de servidores foram colocados sob licença, museus, agências e outras repartições foram fechadas.

Qual a razão? Basicamente, devido ao jogo político rasteiro que se desenrola no Congresso dos EUA. Os republicanos possuem uma ala radical, o Tea Party, na sua maioria, representantes do velho sul conservador, intransigente nas negociações, na torcida do “quanto pior, melhor”. Eles sempre exigem cortes de gastos, mas sem elevação de impostos. Caso isto aconteça, deve incidir sobre a classe média ou os pobres, mas nunca sobre os mais ricos. Somado a isto, a justificar o impasse atual, exigem o adiamento do Plano de Saúde do Governo Obama, conhecido como Obamacare.

O que é Obamacare? A “Lei Federal de Proteção e Assistência Acessível aos Pacientes”, também conhecida por Obamacare, dá cobertura para 32 milhões de pessoas desprovidas de seguro-saúde (20% do total da população). Neste, filhos até 26 anos de idade podem estar no plano de saúde dos pais como dependentes, assim como idosos têm acesso a remédios mais baratos. No passado recente, na gestão Clinton, o país parou em dois períodos, em novembro de 1995 e janeiro de 1996, por 5 e 21 dias, respectivamente, por causa do impasse em torno da aprovação do Medicare, plano de saúde para os idosos. Neste, o embate se deu entre o líder republicano Gingrich e o então presidente Clinton.

Como estamos? Negociações seguem ocorrendo no Congresso, mas preocupa agora a data do dia 17/10, quando deve estourar o limite da dívida pública dos EUA, atualmente em US$ 17,6 trilhões – mesmo imbróglio de 2011. O governo Obama tenta aprovar uma ampliação, mas não pretende colocar o Obamacare como “moeda de troca”. É isto que os radicais republicanos querem. Caso este prazo seja estourado, o risco será do calote técnico da dívida. Os mais otimistas acham que o Tesouro poderá contornar isto, cobrindo suas prioridades pela administração de pagamentos. Já os mais céticos acham isto ilegal e improvável. Atualmente, o Tesouro norte-americano movimenta cerca de US$ 12 trilhões em títulos públicos em circulação, dispõem de cerca de US$ 30 bilhões, mas precisará de US$ 70 bilhões para saldar os vencimentos até o dia 30, segundo estimativas de mercado. Diante disto, já se observam investidores vendendo títulos públicos e bancos mobilizarem recursos (20% a 30% dos disponíveis) para tentar atender ao risco de uma “corrida bancária”.

Quais seriam os efeitos do calote? Difícil saber a dimensão dos estragos se este fato se confirmar. Fala-se no congelamento instantâneo do mercado de crédito, doméstico e global, na disparada da taxa de juros (com diferenciados prazos), no despencar do dólar, na “corrida bancária”, no risco de quebradeira de instituições financeiras, etc. Isto se espalharia no mundo, com especial impacto para os emergentes dada a volatilidade e o risco maior dos seus ativos. Além disto, as agências de rating acabariam por rebaixar a nota soberana dos EUA para, por exemplo, “inadimplência seletiva”. O Tesouro norte-americano, por exemplo, alerta que o país pode enfrentar uma “recessão que lembra os episódios de 2008, ou inclusive pior”. Já o FMI, neste clima de volatilidade nos mercados, com “aversão ao risco” generalizada, estima que o PIB dos emergentes possa cair entre 0,5 e 1 ponto percentual. Segundo Lagarde, chairman do FMI, “os emergentes têm novos obstáculos à frente e a transição não será fácil nem rápida”.

Desfecho possível. Mesmo com o Tea Party, no apagar das luzes acabará prevalecendo o bom senso, com os republicanos mais moderados chegando a um acordo com os democratas. Um alerta é que, com esta paralisia dos serviços públicos, o Fed não terá acesso a todos os indicadores, não tendo condições para tomar decisão sobre o desmonte da política de estímulos monetários. Com isto, esta só deve ocorrer possivelmente na reunião do FOMC/Fed em março de 2014.

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2 comments

  1. Virgynya Cunha

    Estamos e só não admite quem não quer, ou não “pensa”, no ápice de uma nova revolução mundial, como foi a Revolução Industrial. Digo que agora é a “Ecorevolução” que nos apresenta a necessidade de já, há alguns anos, repensar e recriar o sistema mundial financeiro e social. Que me desculpem os economistas, mas não dá mais, já passou da hora de ocorrer uma negociação global, aí sim, a ‘globalização’ da economia mundial. Como? Vamos unificar a moeda, que seja o dólar e buscar uma convivência pacífica e ‘preservacionista’ para que haja realmente um futuro para nosso planeta e nossas próximas gerações……

  2. Regina Caldas

    É inadmissível que republicanos e democratas transformem a saúde dos norte americanos em moeda de troca. Que transformem a população em massa de manobra (aliás, é até ingenuidade acreditar que a política em qualquer lugar da terra seja diferente). Os democratas também respondem por este impasse, que já se repetiu no passado, e não aprenderam a lição.