“Grexit” ainda não será agora

Samuel Pessoa

Diversos fatos recentes aumentaram o risco de que a Grécia saia da zona do euro. O próprio fato de haver um neologismo da língua inglesa – Grexit – para designar esse fenômeno sugere que essa possibilidade passou a ser considerada pelas autoridades e pelos analistas em geral. O objetivo deste artigo é avaliar a probabilidade de ocorrência da saída da Grécia num horizonte de até um ano. Nossa avaliação é de que esse fato não ocorrerá nesse período.

No jogo que hoje Grécia e Europa travam, a bola encontra-se com a Europa. Esse é o ponto de partida para a construção de nosso cenário. A Grécia já fez seu movimento. Não cumpriu e não cumprirá nos termos acordados o contrato recentemente celebrado com a troica por ocasião da renegociação de sua dívida. O que precisamos avaliar é a resposta que a Europa dará a esse movimento da Grécia.

A Europa pode fazer dois movimentos. O primeiro é desistir da Grécia. O país não entrega o ajuste fiscal acordado e a Europa corta as linhas de financiamento do Tesouro grego. O segundo movimento é manter as linhas de crédito, mesmo com o não cumprimento pela Grécia.

O primeiro movimento origina-se de um esgotamento dos europeus com as sucessivas dificuldades da Grécia em melhorar suas contas públicas. Sugere que essa dificuldade está associada também à falta de vontade – o que distinguiria o caso grego do caso português – e, portanto, se a Grécia não cumprir de fato os acordos, a Europa não liberará as linhas de créditos referentes aos contratos celebrados por ocasião da renegociação da dívida grega. O Tesouro grego ficaria sem euros para pagar seus gastos rotineiros – já que a Grécia apresenta déficit primário -, o que obrigaria o pagamento de suas obrigações por meio da emissão de algum título de dívida. Esse papel passaria a circular na Grécia e estariam dadas as condições para a saída do país da zona monetária e a recriação da dracma.

Evidentemente, a decisão de não manutenção das linhas de crédito para o Tesouro grego por causa do não cumprimento do acordo pela Grécia somente pode seguir de uma avaliação de que a Europa e, principalmente, os bancos europeus já estão preparados para enfrentar as perturbações que ocorrerão em razão dessa saída.

É fato que o risco de fronteira da exposição à Grécia se concentra quase que exclusivamente em Portugal, cujo sistema bancário, segundo dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) referentes à posição em dezembro de 2011, anotava exposição a credores gregos da ordem de 5% do PIB português. É possível, portanto, enxergar um cenário de saída da Grécia em que o Banco Central Europeu (BCE) redesconte a carteira de crédito contra gregos do sistema bancário português e, com essa medida, impeça o efeito dominó.

O problema com essa interpretação é que ela supõe que a única forma de contágio de uma saída da Grécia do euro ocorrerá por meio das exposições cruzadas dos diversos sistemas bancários dos diversos países contra devedores de outras nacionalidades. Há um risco elevado de que a saída da Grécia reduza ainda mais a confiança dos indivíduos na solvência dos bancos de Portugal, Espanha e Itália, ensejando corrida bancária de grandes proporções. Evidentemente, é sempre possível enfrentar uma corrida bancária dessa natureza redescontando carteiras de créditos dos bancos dos países afetados. Haveria um processo de transferência dos depósitos para bancos sediados nas economias mais sólidas do norte da Europa e, provavelmente, um processo de falência generalizada dos bancos da periferia da Europa.

Ainda há risco cruzado elevado com relação à exposição dos bancos europeus às empresas do setor não financeiro e famílias de outras economias

Não nos parece que a zona do euro seja dotada de instituições que permitam que ela enfrente processo dessa natureza de forma ordenada. Uma crise bancária de grandes proporções – principalmente em razão da inexistência de uma agência centralizada de resolução bancária que possa rapidamente arbitrar os interesses divergentes entre as diversas economias que hão de aparecer em meio a uma crise desta natureza – produzirá desorganização da atividade produtiva também de grandes proporções. Por esse motivo, pensamos que o curso dos fatos será diferente.

A segunda leitura da evolução das negociações da Europa com a Grécia é de que a Europa ainda precisa ganhar tempo. Desde 2008 os bancos europeus caminharam bastante em direção a reduzir a exposição de seus balanços a bancos de outras nacionalidades. No entanto, ainda há risco cruzado elevado com relação à exposição dos bancos europeus às empresas do setor não financeiro e famílias de outras economias.

Assim, é necessário que a Europa avance no processo de recapitalização dos bancos e na construção de uma institucionalidade que permita, de forma menos traumática, a resolução de episódios de falência bancária. Enquanto não houver esses avanços, nossa avaliação é de que para a Europa é mais barato cumprir sua parte no acordo – mesmo que a Grécia não apresente melhoras fiscais significativas – do que permitir um evento na Grécia.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 11/06/2012

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