Inconformados argentinos

Inconformados com a situação na colônia, expulsaram o vice-rei colonizador, emanciparam-se da Espanha, escreveram uma Constituição, foram os primeiros no mundo a erradicar o analfabetismo, inovaram na literatura, destacaram-se nos esportes, revelaram-se na ciência e na diplomacia, ganhando cinco Prêmios Nobel, entre vários outros feitos, e produziram muita riqueza. Enfim, foram eles que fizeram a Argentina acontecer.

Até o começo da década de 1970, os inconformados foram respeitados por muitos e tolerados por todos. O ponto de inflexão foi no governo peronista de 1973-1976, que prometeu desenvolvimento e democracia na campanha, mas só apresentou um populismo inconsequente. Rotulava a todos os que protestavam de montoneros e comunistas, foi o início da intolerância e do terror. O mentor foi o braço direito de Perón, López Rega, que organizou a Aliança Anticomunista Argentina (AAA), uma entidade paramilitar que coordenou a repressão aos opositores do regime.

Estaria ocorrendo uma guerra contra a democracia, o que legitimaria o uso das Forças Armadas e de excessos na luta. Há relatos de que até forjaram alguns atentados para justificar atrocidades. Nesse governo “democrático” foram registrados 600 desaparecidos e 500 execuções, além dos milhares que deixaram a Argentina por ameaças da AAA e/ou por inconformismo.

Entretanto, foram a corrupção e a inépcia que levaram o país a uma crise, abrindo espaço para que os militares assumissem o governo em 1976. A ditadura foi mais implacável e aumentou exponencialmente os números: há registros de 18 mil desaparecidos. Os militares no poder conseguiram ser mais cruéis e também mais corruptos e ineptos. Tiveram de se render, primeiro, aos ingleses, numa guerra que eles mesmos declararam, e, num segundo momento, aos civis, abrindo caminho para a democracia.

O atual governo, iniciado em 2003 por Néstor Kirchner, ganhou popularidade levando aos tribunais alguns responsáveis pelas atrocidades. Todavia omite todos os desaparecidos na “democracia” peronista anterior à ditadura. Vários militares foram levados a julgamento, e alguns foram condenados, mas continuam a receber seus soldos e pensões. Com grande estardalhaço, tirou a foto do ditador Jorge Rafael Videla da Casa Rosada, mas deixou as dos demais presidentes também culpados de brutalidades.

São outros tempos. A viúva de Néstor e sua sucessora, Cristina Kirchner, faz constantes referências aos desaparecidos para validar algumas de suas ações. Ilustrando o ponto, para evitar o “sequestro de gols” subsidia todas as transmissões de jogos pela televisão, ganhando popularidade. Explora o imaginário popular, pois faz parte da geração dos desaparecidos, mas não existe um único fato conhecido que a mostre vinculada aos inconformados.

O mais grave é que a presidente se diz vítima de um “fuzilamento” da mídia, e com isso justifica a repressão ao jornalismo inconformado. As tentativas de calar jornais não alinhados são várias e incluem exageros como piquetes e acusações absurdas a proprietários de empresas de mídia. No mês passado, a sede do canal de televisão do jornal Clarín, um dos mais tradicionais, sofreu a invasão de forças militares – paradoxalmente, motivada por uma decisão judicial torpe, com base numa lei dedicada a 118 jornalistas, parte dos inconformados desaparecidos.

Apertando ainda mais o cerco, a presidente sancionou duas leis, aprovadas pelo Congresso no mês passado: uma dá ao governo o controle do papel de jornal – é um caso único em que a matéria-prima dos periódicos é considerada um bem público; a outra permite que os meios jornalísticos sejam acusados de “terroristas” pelo governo, caso este entenda que eles estejam conspirando. Foram feitas para pressionar jornalistas.

As duas leis violam frontalmente um princípio constitucional que vigora desde 1853, respeitado por todos os governos, inclusive os militares. O artigo 32 da Carta Magna argentina diz: “O Congresso Federal não ditará leis que restrinjam a liberdade de imprensa ou estabeleçam sobre ela a jurisdição federal”. A liberdade de imprensa é um dos pilares da democracia do país e está sendo demolido. É lutuoso que ocorra na Argentina, um país onde muitos inconformados deram a vida para que isso não nunca mais ocorresse.

A bem da verdade, há, sim, uma conspiração contra a presidente, que é a da realidade. O neopopulismo que permitiu sua reeleição está cobrando seu preço com fugas de capitais, inflação mais alta, salário real em queda, perda de competitividade, investimentos baixos e dinâmica de crescimento fraca. A capacidade fiscal de manter os subsídios para tarifas baixas e programas como o Milanesas para Todos está se esgotando. Os fatos estão cada vez mais fortes.
A realidade mostra sinais inequívocos de pobreza, de insegurança e de queda de expectativas de futuro, que se opõem frontalmente ao discurso “social e progressista” do governo. A discrepância entre as informações dos órgãos oficiais e as de empresas de consultoria privadas é grande, tirando ainda mais credibilidade do governo. A presidente chegou ao absurdo de encomendar outra História da Argentina.

A manipulação de estatísticas e do passado e o combate à imprensa vai apenas dar algum tempo, que pode ser usado ou para postergar o início de uma crise ou para corrigir as distorções. Os problemas são graves, mas não insolúveis, e o potencial do país é grande. Há outra Argentina possível e a única maneira de alcançá-la é um choque de racionalidade na política e na economia. Seria a melhor homenagem aos inconformados, desaparecidos ou não. Cristina Kirchner pode reescrever a História ou fazer História. É agora ou nunca.

Fonte: Estadão, 17/01/2012

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