Toda catástrofe traz o natural sentimento de impotência sobre a capacidade de salvar vidas. O desastre japonês vem se juntar a dezenas de outros ocorridos, sempre imprevisíveis e impactantes.

E também imponderáveis nesse momento são suas consequências de curto prazo. Há muitas dúvidas sobre a capacidade japonesa de recuperação. Não estamos mais em 1995 quando o terremoto em Kobe pegou um Japão ainda com vigor, com dívida pública baixa.

Hoje, com endividamento na casa dos 200% do PIB e taxas de juros a 0% há muito tempo, os graus de ação diminuem rapidamente. Mais do que isso, diferente de Kobe, o desastre atual envolve uma catástrofe nuclear. Isso também afeta sensivelmente a capacidade de recuperação das áreas afetadas.

Basta lembrar que os entornos de Chernobyl são praticamente inabitáveis. Isso sem falar que a própria recuperação física das cidades não será tão trivial. Nova Orleans ainda está longe de lembrar o que era antes da passagem do furacão Katrina em 2005.

Por isso, a atual crise poderá dificultar ainda mais a saída de uma depressão que já dura 20 anos. Os riscos de levar o Japão para um processo mais acelerado de decadência não são triviais.

O temperamento japonês nesse momento pode levar a mais poupança do que gastos e a migração interna para áreas fora das atingidas pela crise nuclear impedem vislumbrar grandes reconstruções nos próximos anos. Assim, no curto prazo, a calamidade é mais um elemento num país já em crise. Não deve, por isso, levar a consequências devastadoras no curto prazo.

Preocupa mais as consequências de longo prazo, principalmente no mercado e petróleo. Com o medo retomado de aumentar a energia nuclear na matriz energética mundial e sem alternativas viáveis de energia renovável no curto prazo, a dependência japonesa do petróleo deverá aumentar.

Juntando os descompassos entre demanda e oferta que devem ainda se prolongar nos próximos anos e a crise no Oriente Médio estamos prontos para anos de preço elevado de petróleo. Talvez aquela situação de acomodação, com petróleo chegando a US$ 60 o barril, leve bem mais tempo para voltar a ocorrer.

Quais as consequências disso tudo para o Brasil? No curto prazo, provavelmente nada. Até agora o câmbio não se mexeu e não parece haver razão concreta para tal. A inflação é basicamente doméstica e as commodities não devem interferir nessa dinâmica.

Entretanto, preços de petróleo elevado levam a toda a cadeia de derivados a ficar pressionada nos próximos anos, mesmo que a Petrobras insista em manter a gasolina sob controle. Os fundamentos de demanda forte e oferta fraca se sustentam também nos mercados agrícolas.

Enfim, preços de commodities deverão ser uma preocupação constante nos próximos anos. A possibilidade de alta volatilidade nos preços das commodities aumenta o risco inflacionário principalmente numa economia ainda indexada como a nossa.

Qualquer choque adicional tem o grande risco de não ser temporário, mas permanente, na inflação. Por isso, o governo terá muito trabalho para conter os preços daqui para a frente.

Fonte: Brasil Econômico, 22/03/2011

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