Mais política em Davos

O Fórum Econômico Mundial que começa hoje em Davos, na Suíça, é talvez o mais político dos últimos anos e terá como centro das discussões o papel da sociedade civil num novo mundo que está se formando, longe das hegemonias e com mudanças tecnológicas e demográficas que exigem dos líderes, tanto políticos como empresariais, novas posturas, bem definidas na pesquisa “O futuro papel da sociedade civil”. Divulgada ontem, ela mostra que essas mudanças representam uma pressão crescente sobre as instituições para que elas promovam justiça social e responsabilidade.

Todos os participantes das ações, sejam tradicionais atores ou emergentes, devem experimentar novos modelos de engajamento e manter uma postura de “desafio construtivo” da situação atual. A pesquisa demonstra que a sociedade civil nunca na História foi tão importante e influente quanto agora, como indicam os recentes protestos de representantes da sociedade em diversos pontos do mundo, especialmente através das novas redes de relacionamento na internet. Elas estão criando populações crescentemente conectadas, mais educadas e responsáveis, em tempos de incertezas econômicas e políticas. A reunião de Davos se realiza no que está sendo considerada “a mais complexa, interdependente e interconectada” era da História da Humanidade, quando grandes desafios de mudanças e oportunidades de transformação confrontam os líderes e exigem organizações capazes de comandar estratégias ágeis e construir estruturas capazes de resistir aos riscos.

Não por acaso o documento do fórum que traça um panorama da agenda para este ano destaca que a capacidade de liderança é considerada o maior desafio daqui para a frente. Segundo Martina Gmür, que coordena o trabalho, a maioria dos líderes em ação em nossos dias cresceu em um mundo completamente diferente. Também o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, que faz parte do grupo que analisa a agenda global, diz que temos necessidade de uma “governança global” que tenha as necessárias capacidades, poder e energia para criar ambiente de negociação internacional em nível mais elevado.

A reunião de Davos se realiza no que está sendo considerada “a mais complexa, interdependente e interconectada” era da História da Humanidade

Ao mesmo tempo em que tenta antecipar a agenda global, esse grupo do fórum faz uma pesquisa sobre o índice de confiança no mundo. Embora tenha melhorado do ano passado para cá, o índice continua abaixo do que seria o “território otimista”. Subiu de 0,38 para 0,43 numa escala do 0 a 1, com a percentagem de líderes que temem uma crise econômica catastrófica caindo de 53% para 48%, sendo que a retomada da confiança é mais marcante entre os empresários dos Estados Unidos.

O número de empresários e líderes com visão pessimista caiu de 56% para 43%, e a percentagem de otimistas subiu de 17% para 23|%. Este é o segundo nível mais elevado de confiança econômica desde que o índice começou a ser pesquisado, há cerca de dois anos, e o índice de pessimismo é o mais baixo já registrado até hoje. Mas há ainda sinais de insegurança, como demonstram os 51% que não acreditam que a governança mundial esteja preparada para enfrentar a crise, e os 45% que não acreditam numa cooperação mundial para solucionar a crise econômica.

É esse sentimento misto de alívio e preocupação que vai dominar em Davos, que terá como motivação central a capacidade da União Europeia (UE) de superar a crise. Com a sensação de que a parte mais aguda já passou sem que a UE sofresse dissidências, agora as preocupações se voltam para a capacidade de manutenção de uma agenda de restrições para que os países mais afetados, como Grécia e Portugal, consigam se recuperar plenamente.

Há a preocupação de que os resultados obtidos até agora estimulem nos líderes europeus um sentimento de complacência, como se todas as questões estivessem resolvidas. Os principais líderes europeus, como a alemã Angela Merkel, o britânico David Cameron e o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, serão as estrelas do encontro, inclusive porque os Estados Unidos não estão mandando qualquer autoridade do primeiro escalão para a reunião.

Fonte: O Globo, 23/01/2013

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