Morte política

O ex-senador Demóstenes Torres já chegou nessa condição à tribuna do Senado quando fez sua defesa final antes da votação. O erro do site do Senado, que antecipou em algumas horas a cassação do senador, é um dos mais comuns em jornalismo, mas desta vez traduzia uma certeza interna.

Prepara-se uma matéria com o resultado mais provável e aguarda-se o momento certo para divulgá-la, bastando para isso apertar um botão. É a competição da notícia em tempo real que faz com que erros como esse aconteçam com certa frequência depois da chegada da internet.

O que impressionou na sessão de ontem do Senado foi o clima de expiação que a cercou, o que levou um político não identificado a defini-la como “o velório de quem já estava morto politicamente”.
E não era apenas Demóstenes Torres o morto político, mas o próprio Senado Federal, mesmo tendo tomado a decisão que coincidiu com o anseio da opinião pública, como vários senadores ressaltaram, na tentativa imediata de recuperação de imagem.

Há, aparentemente, o entendimento no Senado de que os limites da imoralidade estão sendo atingidos

A fala rude do senador Mario Couto pode não ter sido a mais bonita, nem a mais apropriada para um momento de constrangimento generalizado, mas tocou na ferida, refletindo o sentimento no Senado. “Não há moralidade nesta Casa”, apontou o senador, que, aliás, já confessara, no decorrer do processo, que trabalhou para um bicheiro antes de entrar na política.

Cassar o senador Demóstenes Torres foi apenas o cumprimento de uma obrigação dolorosa para alguns, mas também a oportunidade de muitos se vingarem do “falso moralista”, que ontem, pateticamente, pediu perdão pelo “dedo em riste” de ontem.

Mas não devolverá ao Congresso a respeitabilidade perdida em muitas manobras corporativas, em inúmeras maracutaias e, sobretudo, na impossibilidade de se impor como parte fundamental do xadrez político. Quando o faz, quase nunca está defendendo conceitos, programas, teses, mas interesses classistas ou medidas populistas, que podem ser trocados por favores palacianos.

Houve indiscutível progresso com a sessão de ontem sendo transmitida ao vivo pela TV Senado, e aberta ao público nas galerias, ao contrário do que aconteceu em 2007, quando o senador Renan Calheiros foi absolvido em uma votação apertada: 40 a 35, com seis abstenções.

Naquela ocasião, numa decisão arbitrária, a presidência do Senado usou o fato de a votação ser secreta para fechar a sessão aos olhos da opinião pública.

O senador Demóstenes Torres, em plena vigência de sua “persona” de defensor da moral e da ética na política, abriu seu voto a favor da cassação de Calheiros, que ontem acompanhou seu discurso de tentativa de defesa em pé no plenário.

Desta vez, não apenas a sessão foi completamente aberta como se realizou sob a égide do fim do voto secreto, que está sendo decidido no Congresso.

Há, aparentemente, o entendimento no Senado de que os limites da imoralidade estão sendo atingidos, o que faz com que o Congresso como um todo seja mal visto pela opinião pública.

Vários foram os senadores que defenderam o voto aberto para as cassações de mandatos, e outros usaram as redes sociais, como o Twitter, para abrir seus votos.

A defesa do senador Demóstenes Torres variou de tom, entre o técnico e o emocional, em alguns momentos ainda beirando a arrogância, sem encontrar o ponto certo desde o primeiro instante em que foi flagrado em conversas comprometedoras com o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Quando subiu à tribuna para explicar os presentes que recebera do bicheiro pelo seu casamento – um fogão e uma geladeira – o senador Demóstenes garantiu a seus pares que não havia mais nada ligando ele a Cachoeira.

Os presentes, diante do que se ouviu, parecem hoje brincadeira de criança, assim como o rádio Nextel. Mas, enquanto os presentes poderiam refletir uma relação de amizade questionável, mas não necessariamente criminosa, o rádio registrado em Miami é a prova de que sua relação com o bicheiro era mais do que uma simples amizade descompromissada.

O que se comprovou com a gravação do dia 22 de abril de 2009, quando Demóstenes e Cachoeira conversam sobre a tramitação de um projeto que criminaliza o jogo ilegal, mas que, segundo o contraventor, daria margem também à legalização das loterias estaduais.

Em 2002, o então senador Maguito Vilela apresentara o projeto de lei, que foi aprovado por voto de liderança no Senado e, àquela altura, estava tramitando na Câmara.

Cachoeira pede que Demóstenes se empenhe junto ao então presidente da Câmara, Michel Temer, para pôr em votação o projeto, que classifica de “interessantíssimo”. Uma semana depois, a 29 de abril, os dois voltam a conversar sobre o mesmo tema, e Demóstenes pergunta: “Que importância tem a aprovação disso?” Cachoeira: “É bom demais, mas aí também regulamenta as estaduais.”

O senador explica ao contraventor que o projeto de lei não regulamenta nada, que essa será uma segunda etapa, depois de o projeto ser aprovado. E adverte Cachoeira de um problema: “O que tá aprovado lá é o seguinte: transforma em crime qualquer jogo que não tenha autorização. Então inclusive te pega, né ?”
Nesse simples diálogo, estão provadas duas das mais graves acusações contra o agora ex-senador Demóstenes: que ele pôs seu mandato a serviço do bicheiro, e que ele sabia, sim, que Cachoeira continuava na contravenção.

A cassação de Demóstenes Torres, além de ser a decisão justa diante da opinião pública, representa apenas um primeiro e tímido passo do Congresso na busca da credibilidade perdida.

Fonte: O Globo

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1 comment

  1. Antonio

    Não há intenção alguma dos senhores senadores de recuperar qualquer credibilidade por mínima que seja. O que houve foi expurgo de alguém que estava fora da panelinha. Quando um aliado estiver na mesma situação eles defenderão o voto secreto para que o parlamentar não seja coagido por pressões externas. Nada mudou.