Mundo errado, Brasil certo

O que terá sido pior: um Brasil atingido pela Crise de 2008 ou haver por ela passado de maneira quase ilesa?

O primeiro cenário forçaria o País à revisão da pretensa estratégia de desenvolvimento e inserção internacional. Daria largada às urgentes reformas estruturantes e à indispensável reformulação da politica externa.

O segundo convidou as autoridades brasileiras a um discurso moral. Nosso bem-intencionado modelo é de expansão econômica com inclusão social. A crise foi fabricada por “gente de olhos azuis”.

Nesses últimos três anos, pregamos crescimento em vez de austeridade à Chanceler alemã. Sugerimos a Obama corrigir a política monetária dos EUA (sem provavelmente saber que em suas decisões o FED é independente da Casa Branca).

Denunciamos o “tsunami financeiro” e o “protecionismo monetário” com que os países ricos conflagram “guerras cambiais”. Desemprego elevado nos países da OCDE seria prova da fadiga desta fase mais recente do Capitalismo.

Mesmo agora, evidenciadas as limitações de nosso padrão de crescimento, estaríamos sofrendo um “ataque especulativo fiscal” de parte dos donos do “dinheiro grosso”.

Do alto de suas certezas morais, caberia ao País perseverar no rumo em que está. Sua ascensão é inevitável. Até os protestos de junho seriam amostra de que “o Brasil está dando certo”. Isso se percebe nas ações e no discurso do governo brasileiro.

Se o País distrair-se com essas ilusões autocongratulatórias não perceberá o rearranjo nas camadas tectônicas da ordem mundial.

Pactos envolvendo EUA, Europa, Ásia e parte da América Latina. Transformação de cadeias de suprimento em redes de produção global. Metamorfose da China. Surgimento da nova Era do Talento que ofusca vantagens comparativas advindas das commodities.

Mudanças profundas a clamar por uma nova estratégia – e uma nova retórica. Vários países reorientam seu discurso para “adaptar-se competitivamente ao mundo”. Em relações internacionais, fazer – e falar – são igualmente importantes.

“Mudança” foi a palavra-conceito da primeira eleição de Obama. “Reforma” é a bússola do futuro europeu segundo Merkel e Cameron.

“Revolução” é a melhor forma de descrever a agenda reformista que Peña Nieto busca empreender nos bastiões esclerosados de governo e sociedade no México.

“Grande rejuvenescimento da nação chinesa” é o que Xi Jinping pretende com reformas pró-mercado anunciadas nesta semana em Pequim.

“Segunda geração de reformas” (aumento da participação do setor privado na economia) é para Raghuram Rajan, economista de Chicago e atual presidente do BC indiano, o caminho de seu país à prosperidade.

Algo do ceticismo que hoje ronda o Brasil emerge da deterioração do quadro fiscal e dos iminentes refluxos da liquidez internacional. Muito se deve, porém, à percepção quanto ao discurso “continuísta” do governo brasileiro.

Com a vitória da oposição – ou num surto de lucidez da atual mandatária e equipe –, o Brasil só implementará reformas profundas a partir de 2015. Ainda assim, uma retórica reformista desde já faria muito bem ao Brasil.

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