Naufrágio tributário

Considerar que a função das empresas é gerar receita tributária emperra o país. Dilma deve impor concepção desenvolvimentista à Receita

Talvez um dos principais fatores do fracasso econômico do governo Dilma Rousseff em seus dois primeiros anos -com alta inflação, baixo PIB, um dos últimos lugares em crescimento na América Latina, pouco investimento, perda de competitividade internacional e crescimento da esclerosada máquina burocrática- seja o confuso, arcaico e oneroso sistema tributário.

Mediante ciclópicos autos de infração, a produção de complexas normas auxilia a fragilizar as empresas.

Militando há 55 anos na área fiscal e tendo convivido com os pais do Direito Tributário brasileiro, à época em que as leis eram feitas por juristas e não por “regulamenteiros”, tenho acompanhado a deterioração do sistema.

O cidadão, jamais consultado, vê-se de mais em mais envolvido num emaranhado de leis, portarias, instruções normativas, soluções de consulta. A única certeza que se apresenta é a insegurança jurídica.

Pretende a presidente Dilma atrair investimentos, mas a Receita Federal auxilia a afastá-los, considerando operações suspeitas fusões, incorporações e outras formas de agregação de sociedades. Isso tisna a agilidade competitiva das empresas brasileiras perante aquelas de outros países.

A famosa norma antielisão (LC 104/01), que ainda não foi regulamentada, é, sob disfarces diferentes, amplamente utilizada para inviabilizar tais operações, sob a alegação de que, ao escolher entre duas soluções rigorosamente legais, deve o contribuinte sempre adotar a que se apresentar tributariamente mais onerosa.

A única certeza que se apresenta é a insegurança jurídica

Não discuto a idoneidade dos agentes fiscais, mas, sim, a errônea filosofia de que a função da empresa é gerar receita tributária e não provocar o desenvolvimento econômico e social do país. Essa filosofia está emperrando, definitivamente, o governo da presidente Dilma, não só com medíocre performance econômica, mas também com a desestabilização do terceiro setor -que faz o que o governo deveria fazer com nossos tributos-, sendo perseguido pelo poder público como se fosse fonte de receita tributária e não de assistência social e educação.

Participei da comissão de especialistas nomeada pelo Senado para propor uma reformulação do pacto federativo e do sistema tributário. Éramos 13 e, após seis meses de intensos trabalhos, apresentamos 12 propostas de emendas constitucionais, leis complementares, resoluções do Senado e leis ordinárias. Entregues em 30/10/2012 ao presidente do Senado, elas continham soluções para o equacionamento da guerra fiscal, novos critérios para os fundos de participação dos Estados e municípios, para os royalties do petróleo e para a reformulação da partilha tributária.

Apenas no que concerne à guerra fiscal, o governo federal aproveitou as sugestões.

Como o mandato não foi renovado, não pudemos continuar o trabalho para uma reforma tributária completa. Enquanto isso, o país naufraga num sistema que o próprio governo reconhece de há muito ultrapassado.

Na década de 60, no Canadá, a “Royal Comission of Taxation” se voltou a promover justiça social e desenvolvimento por meio de uma política tributária correta, que privilegia esses objetivos em lugar da mera arrecadação. Seu incremento decorre, necessariamente, do atingimento de ambos.

Creio que, se a presidente Dilma não impuser uma filosofia desenvolvimentista à Receita Federal, baseada no modelo canadense, dificilmente sairemos dos últimos lugares de desenvolvimento e seu governo continuará a ostentar um dos piores índices da América Latina, com baixo crescimento e alta inflação.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 23/01/2013

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2 comments

  1. Lenine da Silva

    Parabéns Presidenta Dilma seu dois anos de governo vem sendo um sucesso, na medida em que a eficácia das medidas de proteção do emprego e da renda vem se solificando, desoneração cambial e tributária foram perfeitas diria Keynes, um ano de recessão nos Países Desenvolvidos foram crueis com a economia Mundial. a Espanha 13 economia do mundo informou hj, 26,02% de desempregados, quase 6 milhoes de empregos o que atinge um populaçao de 10 milhoes de espanhois, Alemanha, Italia, França, Inglaterra, sofreram, nem vamos citar, Portugal, Grécia, e outros, não se esqueçam que nosso PIB nominal teve um crescimento de 11%, sabe o que é isso, é o crescimento da riqueza em REAIS, para ajustar a economia brasileira ao espirito animal de Keynes, desvalorizamos o Real em 10%, para dar competividade aos exportadores e intimidar as importações, o processo de substituiÇào de importações por empresas globais ja esta acelerada, ahhh reforma tributária????

  2. Lenine da Silva

    Quando vejo alguém dizer que o empresário gera impostos e paga impostos, cria empregos, vejo o abismo que há entre filosofias de desenvolvimento sob um cenário de demanda e um outro que acha que empresário investe, emprega, distribui renda sem que haja um mercado positivado, demandado, dito pelo CEO de uma global, o Brasil é um dos unicos mercados do mundo positivado, demandado, vamos investir no Brasil, e os economistas do Governo, Mantega, Luciano Coutinho, própria Presidenta, estão errados !!!!!