Novas rodadas de estímulo em busca do crescimento perdido

Em meio à guerra mundial por empregos, os bancos centrais anunciaram nas últimas semanas políticas monetárias ainda mais expansionistas. O Federal Reserve (Fed), dos Estados Unidos, injetará mensalmente mais US$ 40 bilhões de liquidez nos mercados financeiros, por meio da compra de títulos lastreados em créditos imobiliários. O Banco Central Europeu (BCE) finalmente aprovou a compra de títulos de dívida soberana dos países fiscalmente frágeis da Zona do Euro. O Banco Central do Japão acaba de ampliar em 10 trilhões de ienes seu programa de compra de títulos do governo. O Banco Central da China derrubou os juros e ampliou o crédito para moderar o ritmo de desaceleração da economia do país. E o Banco Central brasileiro, depois de derrubar os juros reais para o mais baixo patamar em duas décadas, reduziu também os recolhimentos compulsórios para aumentar a oferta de crédito e diminuir o spread bancário cobrado dos tomadores de empréstimo.

A forte reação dos bancos centrais é uma indicação do esforço das autoridades monetárias para reativar o crescimento da economia mundial. As Bolsas reagiram inicialmente com entusiasmo ao renovado compromisso dos bancos centrais por manter a enxurrada de liquidez que levanta a maré nos mercados financeiros. Mas os preços das ações perderam novamente o gás ante os frágeis fundamentos da produção e do emprego em toda parte.

Mesmo a recuperação econômica americana, que prossegue graças à abordagem mais agressiva do Fed, tem pela frente a ameaça de um “abismo fiscal” – enormes cortes de gastos públicos e aumentos de impostos que serão disparados automaticamente na ausência de um entendimento suprapartidário para correção do atual desequilíbrio fiscal.

A forte reação dos bancos centrais é uma indicação do esforço das autoridades monetárias para reativar o crescimento da economia mundial

O terceiro afrouxamento quantitativo de liquidez do Fed (QE3) tem como maior objetivo estimular o aumento da produção e a criação de empregos no setor real, já que, ao contrário dos episódios anteriores em 2008 (QE1) e 2010 (QE2), não há nenhuma ameaça de deflação, tão temida pelas autoridades. As expectativas de mercado para a inflação nos próximos dez anos nos Estados Unidos atingiram 2,73% ao ano após o anúncio das novas medidas de estímulo monetário, seu patamar mais alto desde maio de 2006. Essa política de crédito farto e dinheiro barato trouxe embutidos dois preocupantes sinais. O primeiro é que não tem prazo para acabar. O segundo é que o Fed escolheu a taxa de desemprego – e não mais de inflação – como meta a perseguir.

Já sabíamos informalmente que Ben Bernanke, o presidente do Fed, despejaria dinheiro e sustentaria os preços dos ativos financeiros, em desesperada tentativa de criar empregos, até eventualmente inflacionar a economia americana. Sua política monetária tem sido “reflate until it inflates”, ou emitir até inflacionar. Evitar a temível deflação dos preços de bens e serviços e espantar o fantasma da Grande Depressão é algo que ele tecnicamente pode fazer. Mas o que está anunciando agora – que manterá as taxas de juros em níveis extraordinariamente baixos por tempo extraordinariamente longo, de modo a reduzir permanentemente a taxa de desemprego – é algo que tecnicamente não pode prometer.

É compreensível que, em tempos extraordinários como a grande crise contemporânea, o Fed tenha recorrido a medidas também extraordinárias. Mas, se teve sucesso em impedir que se reeditasse uma Grande Depressão como nos anos 1930, tem produzido bolhas imobiliárias e financeiras em série. As baixas taxas de juros e o crédito farto tornaram-se verdadeiras bombas-relógio. Os juros baixos de 2002 a 2006 para reflacionar a economia, após o estouro da bolha acionária de novas tecnologias em 2000-2001, acabaram criando novas bolhas imobiliária, financeira e acionária, que estouraram em 2007-2008. E as mesmas políticas, que prosseguem expansionistas com os programas QE1, QE2 e agora QE3, são o ovo da serpente da próxima grande bolha em formação, dos títulos públicos do governo americano.

Como alertava o prêmio Nobel de Economia Milton Frie- dman, em seu clássico O papel da política monetária (1967), os bancos centrais não podem fazer indefinidamente o que está sendo prometido por Bernanke. Na seção intitulada “Ò que a política monetária não pode fazer”, Friedman afirma: “Das infinitas limitações da política monetária, destaco duas: 1) não pode manter juros excessivamente baixos, a não ser por períodos muito curtos; 2) não pode reduzir a taxa de desemprego, a não ser por períodos muito curtos”. Se primeiro Alan Greenspan e agora Bernanke mantiveram os juros baixos por tempo suficiente para evitar as pressões deflacionárias nos mercados de bens e serviços, esse tempo se demonstrou demasiado longo para impedir a formação serial de bolhas nos preços dos ativos.

Os americanos se perderam por tanto tempo nesse labirinto que acabaram atraindo o mundo inteiro para a mesma armadilha em que já haviam caído: o recurso ao dinheiro barato dos bancos centrais na tentativa de evitar os ajustes estruturais exigidos pela deterioração de fundamentos econômicos. Trata-se de uma mudança no regime monetário mundial, uma nova época com taxas de inflação mais elevadas e menores taxas de crescimento.

Esse fenômeno será visível inicialmente na economia americana, exatamente pelo maior vigor da atuação do Fed. Enquanto os países europeus permanecem submetidos à maior disciplina imposta pela moeda única, os americanos seguem à frente numa recuperação cíclica à base de estímulos monetários. Essa recuperação pode ser abortada, em 2013, pelo mergulho no “abismo fiscal” ou, em 2014, pela mudança de atuação do próprio Fed, que subiria os juros mais cedo que o previsto diante de um maior ritmo de crescimento ou taxas de inflação mais elevadas.

A economia brasileira, desalavancada nos anos iniciais da crise (2008-2009) e dessincronizada da economia mundial graças a nossas políticas contracíclicas nos anos seguintes (2010-2011), esfriou consideravelmente em 2012. Em busca do crescimento perdido, disparamos novas rodadas de estímulos fiscais monetários e ao crédito. E deveremos ter em 2013 uma recuperação cíclica, mas também um pouco mais de inflação.

Fonte: “Época”, 15/10/2012

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