O que nos diria a “Dama de Ferro”?

Perguntar aos mortos é, às vezes, mais fácil do que conversar com os vivos. Ao falecer, Margaret Thatcher retorna ao noticiário com a lembrança do que melhor nos deixou como exemplo de ação política tanto quanto sugestão de conduta nas nossas vidas privadas: ousar quando a vontade é de recuar; tentar o impossível como se fosse algo simples de fazer acontecer.

Mas esta – precisamos admitir – é uma receita para poucos, motivo pelo qual a “Dama de Ferro” tinha este apelido e despertava muita controvérsia e até algum rancor, daquele tipo que se alimenta entre estudantes quando uma diretora do colégio é considerada severa demais.

Thatcher deu um basta ao declínio britânico dos anos 1970, com inflação em 20% e 3 milhões de desempregados. Cortou despesa pública e fez recuar o esclerótico Estado empresário.

A fórmula de prudência econômica e fiscal parecia impossível num ambiente dominado pelas demandas de grupos de interesse, como os mineiros de carvão, os servidores públicos, então a seu próprio serviço, a indústria britânica esmagada pela competição e a moeda abalada pela inflação e a ação de especuladores, como George Soros que, na época, ganhou fama por fazer fortuna apostando contra a libra.

Os desafios de ontem, encarados por Thatcher e seu partido são os mesmos de hoje, com outras tintas e atores. O mundo entra no quinto ano de não-ajustamento e acomodação à explosão financeira de 2008.

Emissão monetária desmedida não cria riqueza tangível. Tampouco o resgate ilimitado do sistema bancário

As lideranças fracas do mundo preferem caminhar na adoção de afrouxamentos monetários sucessivos, sendo o mais recente anunciado pelo Japão, que comentamos aqui na semana passada.

Emissão monetária desmedida não cria riqueza tangível. Tampouco o resgate ilimitado do sistema bancário.

A maioria dos bancos no mundo dito desenvolvido continua apresentando níveis perigosos de exposição de ativos, não cobertos por patrimônio. Os endividados do mundo insistem na manutenção de gastos públicos que a sociedade que produz e paga impostos não consegue mais bancar.

E, do mesmo modo, a crescente desigualdade social e a evasão de impostos pelos ricos constitui marca registrada de uma economia de alto endividamento e baixo investimento.

Todas essas distorções dos tempos atuais mereceriam desaprovação de Thatcher. No entanto, a qualidade principal da Dama de Ferro não estava em saber reprovar, mas em saber propor e executar.

Por isso, virou o jogo no seu país recolocando a Inglaterra, decadente e deslocada de seu passado glorioso, no seu devido lugar. Dos anos 1980 até a crise de 2008, a renda per capita britânica cresceu mais do que qualquer outro na zona do euro.

Margareth Thatcher esteve no centro dessa revolução econômica, ainda que incompleta e, no momento, cercada de incertezas quanto às saídas desta nova crise. Thatcher continuará personalidade polêmica.

Ela parecia não se importar com isso. Pelo contrário. Como estadista, sempre preferiu ser reconhecida por ter criado tanta riqueza para seus compatriotas e tantos exemplos positivos para o mundo.

Fonte: Brasil Econômico, 12/04/2013

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