O perigo está na curva ascendente

Foi por 20 centavos? Claro que não. Os 20 centavos, como chamariz, são atraentes: você os gasta todos os dias. Duas ou mais vezes por dia. Diferentemente do supermercado, a que se acorre uma vez por semana. Isso aguça sua lembrança.

Desde o fim da inflação, no governo Fernando Henrique Cardoso, e do redistributivismo de Lula, o Brasil entrou em uma curva ascendente: todos esperavam melhorar mais e sempre. Se o Brasil tivesse continuado miserável como era, essas manifestações provavelmente não estariam ocorrendo.

A ascensão criou expectativas que vêm sendo frustradas. As pessoas esperavam mais. Os primeiros e mais portáteis símbolos de ascensão, moto e carro, ficaram mais acessíveis. Televisão LCD ou LED, também. Mas, de repente, tudo ficou mais distante: crédito menor, pagamentos inaguentáveis e bens, não raro, perdidos pela necessidade de devolvê-los. Para muitos isso significou a volta ao ônibus. E, todos os dias, amassado, demorado. A visão do paraíso do consumo ficou menos nítida e mais distante. O celular inteligente, quiçá, impossível.

O brasileiro comum não faz projeções de longo prazo, exceto em duas coisas: casa própria e educação. Essas ficaram também mais distantes.

A “marolinha” de Lula foi uma tirada genial: adiou a sensação de que o paraíso estava começando a terminar. Ótimo para o fim do seu governo, suave. Só que os brasileiros esperavam que a marolinha fosse apenas uma marolinha. Mas não foi. As ondas agressivas contra a ascensão social e econômica ficaram maiores e mais fortes. E lá se vão quase três anos.

Não tenho nenhuma proximidade com o Palácio do Planalto, salvo pelo fato de morar em Brasília. Mas nesses anos de estudar e pesquisar política aprendi que subordinados não dão más notícias aos chefes. Só chegam perto da presidente os que uma larga e forte muralha de assessores e sicofantas deixa. Mais: quem fala com o ou a presidente vai pedir alguma coisa. Por que arruinar a perspectiva de ter o pedido atendido dando más notícias? As notícias só chegam ao “manda más”, como dizem os argentinos, filtradas e amenizadas por assessores e visitantes.

Mas, inesperadamente, acontece uma vaia de milhares de pessoas. Nada diferente do que diz a imprensa, ou do que as pessoas conversam ou de que se queixam. Há, porém, uma diferença: a vaia não sofre o filtro dos intermediários, é entregue diretamente ao destinatário. Daí para a frente não há como ignorar.

O brasileiro comum não faz projeções de longo prazo, exceto em duas coisas: casa própria e educação

Em agosto de 1954 meu pai ganhou do patrão, grande proprietário de cavalos de corrida, convites para o Grande Prêmio Brasil no Jockey Club Brasileiro, no Rio de Janeiro. E lá fomos nós, a mãe, o pai e eu, com 11 anos de idade, para o evento mais chique da época. Beleza para uma família de classe média ascendente. Naquele tempo futebol era coisa de pobre.

Subitamente, na entrada, uma comoção, muita gente. Corri e vi a uns metros de distância o presidente Getúlio Vargas chegando. Corri para meus pais e contei: “Acabei de ver o Getúlio”. Minutos depois ele emergiu de um túnel e apareceu na tribuna de honra. As pessoas viraram-se para a tribuna, viram-no e a vaia começou. Num hipódromo, diferentemente dos estádios, as arquibancadas são em linha reta, não em círculo. A vaia começou nas arquibancadas dos ricos (a social), alastrou-se para as especiais (classe média) e depois para a popular.

Foi assustadora. Nos meus 11 anos, eu nunca tinha visto nada parecido.

No dia 24 de agosto Getúlio Vargas suicidou-se. Dali em diante foi uma sucessão de golpes e contragolpes, que culminaram, dez anos depois, no golpe militar de 1964.

Não se sabe que desfecho terão as manifestações que são realizadas no Brasil nos tempos atuais. Espero que não seja tão dramático.

A partir da vaia no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, no sábado 15 de maio de 2013, no entanto, acabaram-se os filtros. Lá a presidente viu e ouviu que o Brasil está descrente da promessa de que os anos vindouros, desde 1994, seriam sempre de melhoria de vida para todos.

As denúncias de corrupção e ineficiência governamental nos anos 1950 eram muito parecidas com as de hoje. O que as pessoas percebem é que a promessa de melhoria de vida infinita diminui de velocidade e a inclinação da curva se achata. Em linguagem de gráficos, a curva vira uma linha reta e tende ao paralelismo com o eixo horizontal.

Então, como agora, cada um tinha uma percepção diferente de como aquelas coisas que ocorriam no mundo dos poderosos afetariam negativamente a vida de todos. O estopim, na época, foi o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, crítico feroz do governo, que levou um tiro no pé, alegadamente disparado por uns contratados da guarda pessoal de Vargas. Os adeptos das teorias conspiratórias dizem que Lacerda teria atirado em seu próprio pé. Nessa confusão, um major da Aeronáutica, segurança de Lacerda, foi baleado e morto.

Agora os políticos e o governo, aturdidos, responderam com algumas medidas pontuais e contrabandearam a reforma política e o financiamento público de campanhas, que ninguém pediu. Isso resolve os problemas deles, não os do povo!

Não sei se termino este artigo dizendo que qualquer semelhança com a vaia a Vargas é mera coincidência ou não. Só sei que tentar fazer análises detalhadas das passeatas me lembra um dito do Barão de Itararé, cáustico humorista das décadas de 30 a 50 do século passado. Comunista, ele foi preso numa passeata. Ao levá-lo, disse o delegado: “O senhor está sendo preso porque é o cabeça dessa passeata”. E o Barão respondeu rápido: “Seu delegado, essa passeata não tem pé nem cabeça”.

As de hoje em dia também não, mas têm corpo e abalaram todo mundo, deixando o governo atordoado. Ninguém é capaz de prever o que acontecerá. Mas fica ainda a pergunta fundamental: de onde sairá o dinheiro para tudo isso?

Fonte: O Estado de S. Paulo, 29/07/2013

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