O segundo desaparecimento dos desaparecidos políticos

“A tua piscina tá cheia de ratos.”
CAZUZA, em “O tempo não para”

Na primeira vez, eles desapareceram fisicamente. Foi durante a ditadura militar, principalmente entre os anos 1960 e 1970. Não foram tantos assim, dizem os que preferem minimizar o caráter criminoso da ditadura no Brasil, alegando que a ditadura chilena, de Pinochet, matou mais gente. Segundo contagens cautelosas, Pinochet legou aos chilenos um saldo de 3 mil mortos ou desaparecidos. No Brasil, embora a quantidade não seja idêntica, a brutalidade foi equivalente. Em nosso país, os levantamentos mais confiáveis apontam 387 casos. O número ainda é aproximado, pois há capítulos que precisam ser esclarecidos. Sabe-se que, no dia 1º de abril de 1964, quando os militares desfecharam o golpe de Estado, houve execuções de militantes ligados a movimentos de trabalhadores rurais no Nordeste, mas não se sabe o número de mortos. Mesmo assim, a despeito de pequenas imprecisões, ninguém mais contesta que a vida de cerca de 400 cidadãos brasileiros foi ceifada durante os anos de chumbo. Desses, aproximadamente 130 foram “evaporados”. Deles não temos restos mortais: foram arrancados do mundo dos vivos sem jamais ter sido entregues ao dos mortos.

O segundo desaparecimento veio mais tarde, com a redemocratização. Esse desaparecimento vem sendo construído aos poucos, por força do esquecimento, principalmente por força do esquecimento oficial. Tem sido compacta a resistência do Estado brasileiro – depois de dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso e outros dois de Luiz Inácio Lula da Silva – em apurar criteriosa e profundamente o que se passou: quem sequestrou, quem torturou, quem matou, quem mandou matar, quem deu sumiço nos corpos, de que forma, quando, onde (o porquê todos já conhecemos). Até hoje, o Estado brasileiro não disse oficialmente o que foi feito com os prisioneiros indefesos que morreram nos porões do regime.

Atenção, leitor: não se trata de prender e perseguir torturadores. Estamos falando aqui de alguma coisa anterior e mais essencial: saber o que aconteceu, saber do paradeiro dos corpos, saber quem foram os agentes desses crimes.

Agora, finalmente, a esperança de que pelo menos o segundo desaparecimento seja revertido ganhou um novo impulso. No fim do ano passado, no dia 18 de novembro, a presidente Dilma Rousseff sancionou a lei que institui a Comissão Nacional da Verdade, cuja função é apurar as violências cometidas pela repressão. A lei é uma conquista histórica, sem dúvida. Mas há um dado que começa a preocupar. Desde novembro até hoje, a Comissão não foi constituída e, por isso, ainda não existe na prática. No vazio, crescem as perplexidades. Por que a demora? Quem serão seus integrantes? Eles terão compromisso com o esclarecimento da verdade ou terão mais compromisso com as acomodações de praxe, as que têm prevalecido desde o fim da ditadura?

A resposta está nas mãos da presidente da República. A ela cabe nomear a Comissão. A propósito, se ela resolvesse essa pendência agora, em janeiro, na reforma ministerial, daria um sinal mais afirmativo sobre o que pretende fazer nessa área. Aguardemos.

Saber em detalhes, oficialmente, como operou a máquina repressora da ditadura militar é uma exigência prévia da ordem democrática. Um Estado que silencia, que finge que essa tragédia não aconteceu, é um Estado que, a posteriori, vai se tornando cúmplice da barbárie. É, portanto, um Estado indigno da ordem democrática. Essas palavras talvez soem demasiadamente principistas, mas aqui não há como tergiversar. Trata-se, verdadeiramente, de uma questão de princípio. Um Estado que não se movimenta para encontrar seus desaparecidos é um Estado que não quer limpar sua própria história, sua “piscina cheia de ratos”.

É doloroso admitir o trauma do desaparecimento. Mais doloroso ainda é falar sobre ele. Mas é indispensável, tanto para os parentes que ficam como para a democracia que virá. Recentemente, o jornalista e professor Bernardo Kucinski, no livro K. (editora Expressão Popular, 180 páginas), expôs ao país sua representação particular. Em 1974, ele perdeu a irmã, Ana Rosa, professora de química da Universidade de São Paulo, desaparecida na repressão. K. é um relato curto e magnífico, voz de um luto familiar, homenagem à memória de uma nação. Um alento, ainda que trágico, para os que não querem seguir esquecendo. Se não honrarmos esses mortos sem paradeiro, não honraremos a nós mesmos.

Fonte: Época, 16/01/2012

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