Luiz Felipe Lampreia Instituto Millenium

Uma onda de pessimismo varre o mundo. O Fundo Monetário manifesta dúvidas sobre a capacidade das economias emergentes de suportar os efeitos de um crescimento mais lento. Tantos analistas fazem projeções negativas sobre os efeitos do impasse político crescente nos Estados Unidos e sobre os resultados da desaceleração da China. Na Europa,o que mais se ouve é que as coisas vão mal.

No Brasil, há muito que se orgulhar da emergência do país como uma economia que cresce e promove a ascensão social de milhões de cidadãos. É óbvio que ainda falta progredir muito – como os recentes protestos demonstraram com força.
Creio que é preciso contrapor-se a este pessimismo, criando uma agenda de longo prazo, se queremos ter um futuro melhor e mais sustentável. Foi este imperativo de contribuir para equilibrar as pressões de curto prazo com as necessidades de longo prazo que me fez aceitar participar da Comissão para as Futuras Gerações, criada pela Martin School, da Universidade de Oxford, e presidida por Pascal Lamy, o ex-diretor-geral da OMC.

Este grupo foi composto de pessoas ilustres das mais variadas procedências, como Chris Patten, o chanceler de Oxford, Ian Golding, Trevor Manuel, Robert Zoellick, Ana Huffington, Lionel Barber, Mo Ibrahim, Lord Stern, Lord Rees, Nadan Nilekani, Jean Claude Trichet, Liu He, Kishore Marubani e alguns outros. Sua motivação central era uma preocupação profunda com o impasse nas negociações de comércio internacional, mudanças climáticas, embates cibernéticos e outras. A nosso ver, não é aceitável que tantos processos que buscam equacionar graves problemas globais estejam entravados. Há, entretanto, razão para esperar melhorias.

Em contraste com os Estados Unidos e virtualmente com todos os demais países do mundo, o rendimento pessoal entre os 10% mais pobres da população mundial cresceu mais do que o dobro do rendimento dos 10% mais ricos. A população mundial vivendo em extrema pobreza caiu de 16,4 em 1995 para apenas 4,7 por cento em 2009.

O resultado de nosso projeto de um ano de pesquisas, análise e debates é uma agenda prática para a ação. O documento chama-se em inglês “Now for the Long Term”, foi publicado no dia 16 de outubro e apresenta diversas recomendações de mudanças

A experiência brasileira, assim como de outras nações, inclusive África do Sul, México, Malawi e Zâmbia, é que transferências em dinheiro podem ter impactos positivos em reduzir a pobreza infantil e aumentar a renda das famílias. Estas famílias podem usar estas ajudas para investir em seus filhos, pagando por sua educação e saúde, com efeitos multiplicadores na economia local. Os integrantes da Comissão foram encorajados pela evidência que, em países de renda média e alta, 25% dos estímulos fiscais desde a crise de 2008 foram direcionados para medidas de proteção social.Não podemos deixar cair estas tendências.

Outras recomendações importantes da Comissão para as Gerações Futuras dirigem-se à necessidade de reforma das instituições globais, ao enfrentamento dos riscos climáticos e à melhoria da governança corporativa. Elas incluem:

* A criação de uma coalizão (C20-C30-C40) para combater os efeitos nocivos das mudanças climáticas. Seria um grupo formado pelos países do G-20, 30 companhias e 40 cidades. A coalizão buscaria acelerar ações sobre mudanças climáticas com metas mensuráveis que incluam edifícios e veículos eficientes no uso de energia no mapeamento das emissões.

* Estabelecer um sistema de acompanhamento dos regimes fiscais e dos marcos regulatórios para rastrear abusos tributários, promover a troca de informações e aumentar a transparência

* Estabelecer limites temporais para o financiamento público de instituições internacionais a fim de assegurar que haja revisões regulares de seus mandatos e exame de seus resultados.

* Remover subsídios perversos em agricultura e hidrocarbonetos e reorientá-los para os mais pobres.

O documento de agora para o longo prazo identifica áreas essenciais onde é necessário realizar mais progressos e desenha uma agenda realista para a ação. Nossa crença é que não podemos pensar que nossos netos e bisnetos vão encontrar respostas para os problemas mais difíceis se receberem um legado de pobreza, crise ambiental e recursos escassos. Temos a responsabilidade e a capacidade de criar um futuro sustentável e que inclua a todos. Nossa esperança é que nossas recomendações possam estimular debate e ação sobre os desafios críticos que se apresentam nos planos nacional e global.

Fonte: O Globo, 19/10/2013

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