“Pega os peixe, não os emprego”

O que traz a felicidade? Como o otimismo e a esperança afetam a saúde física? Como estimular a criatividade, o talento, a perseverança, a comunicação afetiva, a capacidade de superação dos inevitáveis traumas e adversidades da vida? A proposta de ampliar o foco da psicologia convencional na patologia e no reparo de danos psíquicos para o desenvolvimento de qualidades psicológicas que tornem a vida melhor é de Martin Seligman, em “Positive Psychology”, na “American Psychologist” (janeiro de 2000).

Em uma verdadeira revolução educacional, o Centro de Psicologia Positiva da Universidade de Pensilvânia sustenta que esses princípios para a busca de uma vida melhor podem e devem ser ensinados nas escolas. As habilitações tradicionais, apenas, seriam insuficientes. “O que desejam os pais para seus filhos? Felicidade, saúde, autoconfiança, equilíbrio emocional. O que ensinam as escolas? Alfabetização, matemática, disciplina, raciocínio crítico. Os pais querem ‘bem-estar’; as escolas ensinam ‘desempenho’”, registra Seligman, em “Positive Education: Psychology and Classroom Interventions”, na “Oxford Review of Education” (junho de 2009).

Para o criador da psicologia positiva, nunca houve tanta riqueza material e tão pouca satisfação emocional. Esse descolamento revela o vazio existencial do homem moderno e a necessidade de ferramentas cognitivas para a busca de seu bem-estar desde criança, portanto, desde a escola.

Como explica Seligman em matéria de capa da revista “Época” desta semana, a arte de bem viver está além das fortes emoções de alguns momentos felizes. As boas amizades, as realizações pessoais, os sensos de propósito e de solidariedade, a entrega apaixonada no exercício do autoaperfeiçoamento são as muitas dimensões de uma existência feliz. Essas reflexões me ocorrem na tentativa de compreender a recente controvérsia em torno de um conteúdo educacional: “Nós pega os peixe… mas nós merece todo o respeito, e não o preconceito.” Todo o respeito e consideração, sim, à preservação da autoestima dos alunos e de suas famílias, que não tiveram oportunidade de frequentar salas de aula. Mas com o inarredável compromisso dos professores de corrigir os erros para romper com o círculo vicioso do despreparo e da pobreza na sociedade do conhecimento. E o conteúdo? Se agora “nós pega os peixe”, depois “nós não acha emprego”.

Fonte: O Globo, 23/05/2011

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