Pioneira da inclusão cultural

A vida e a obra de Conceição Moreira Salles — a Conceição da Biblioteca, como muitos a chamavam carinhosamente — são maiores que a sua morte súbita e prematura. Durante os quase 30 anos na direção da Biblioteca Demonstrativa de Brasília, essa bibliotecária, servidora pública e fomentadora cultural exemplar cultivou, em plena W3-Sul, um oásis que acolheu e deu de beber aos sedentos de saber e de beleza desta capital de um país que Oswaldo Aranha, em 1933, definira como deserto de homens e ideias.

Quando Brasília ainda era pouco mais que uma adolescente sem história, Conceição subverteu a visão então dominante de biblioteca como ilha repleta de livros parados nas estantes, cercada de silêncio por todos os lados, e transformou a BDB em organismo vivo, indispensável, graças à interação permanente com o pulsar da cidade. Não conheço nenhum escritor, artista plástico ou mesmo músico brasiliense que, no início da carreira, não tenha recebido da BDB, por intermédio de Conceição, um estímulo e, sobretudo, um espaço para levar ao público as primícias do seu trabalho, tantas foram as noites de autógrafos, as exposições e as sessões da Bibliomúsica que ela patrocinou.

Se hoje todo o mundo fala em inclusão cultural, vale lembrar que Conceição sempre a praticou, arregimentando professores voluntários ou quaisquer outros cidadãos — e principalmente cidadãs —, com tempo disponível e compromisso com a educação, para oferecer plantões de reforço e esclarecimento de dúvidas a alunos de todas as séries, principalmente os que estudam nas detonadas escolas públicas. Estudantes e concurseiros pobres, filhos de famílias numerosas, sem um cantinho tranquilo em casa para ler e fazer as tarefas, ali encontram paz, conforto e alimentação a preço módico, pois, no prédio da BDB, ela criou uma cantina que funciona até tarde da noite.

Sua liderança proativa conquistava a fidelidade e a cooperação de sua pequena equipe, bem como o entusiasmo e o carinho de uma multidão de admiradores, que se tornavam seus amigos por toda a vida. Que o digam, por exemplo, as adoráveis senhorinhas do programa de atualização feminina, que há 25 anos se reúnem, religiosamente, nas tardes de quarta-feira para ouvir palestras sobre os temas mais quentes da agenda nacional e internacional e, depois, crivar de perguntas inteligentes e oportunas os expositores convidados. Tive a honra de ministrar conferências anuais sobre conjuntura política e relações Executivo-Legislativo a esse simpático e animado grupo.

Como ninguém, ela conhecia (e sofria com) o descaso, o imobilismo e a hipocrisia demagógica que as autoridades governamentais costumam votar à leitura, à arte, numa palavra, à cultura no Brasil. Mas isso, ao invés de desanimá-la, parecia incendiar o seu empreendedorismo e a sua criatividade, levando-a a iniciar e consolidar parcerias com todas as esferas e níveis do Estado e com os mais variados setores da sociedade, aí incluídos com destaque os meios de comunicação, a fim de promover os eventos e a modernização de processos de trabalho (como a digitalização de acervos) que jamais cabiam no magro orçamento público.

Seu legado revela grandeza cívica e humana, mas sua ausência sublinha quão precária continua sendo a institucionalidade da ação cultural em Brasília e em todo o Brasil: quando um ator da sua importância sai para sempre de cena, sua herança é ameaçada pela acomodacionismo, pela pasmaceira burocrática, pelo carreirismo miúdo dos que gastam tanto tempo e tanta energia lutando para ocupar cargos que nem lhes passa pela cabeça desempenhar a missão e preencher as expectativas que deveriam estar sempre associadas à concepção de serviço público como serviço ao público. Como ensina Max Weber, quando o carisma se retira, o que fica é a rotina.

A pior das traições que nós, amigos, admiradores e beneficiários da obra de Conceição podemos cometer contra esse legado é abandoná-lo e esquecê-lo. Agora, entre as inúmeras lições de humanismo, ética, saber, beleza e cidadania que ela, generosa e incansavelmente, nos transmitiu, precisamos resgatar a que ensina a triunfar das dificuldades mobilizando as forças mágicas da cooperação e da participação. Só assim honraremos de fato a sua memória e preservaremos para os brasilienses das próximas gerações o mundo que Conceição Moreira Salles criou.

Fonte: Correio Brasiliense, 16/01/2012

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