Ficou entendido assim: a crise financeira de 2008 resultou de falhas de mercado, deixado excessivamente livre. Vai daí que a resposta exigia, necessariamente, mais controle do governo e da sociedade sobre esse mercado. Controle social, nós sabemos, é muito complicado. Acaba sendo capturado por grupos organizados. Assim, a coisa ficou mesmo por conta dos políticos eleitos, que justamente reclamavam mais poder de decisão.

O que vimos depois, porém, não é nada satisfatório.

Os últimos episódios nos Estados Unidos (a incrível disputa em torno do limite da dívida pública do país) e na Europa (como lidar com o euro e com os países endividados) mostram que estamos diante de uma imensa “falha dos políticos”.

Ressalva: é verdade que os governantes conseguiram evitar o pior na crise de 2008 e de seus desenvolvimentos imediatos. Apesar de percalços e de atrasos, os líderes mundiais coordenaram ações econômicas e monetárias e bloquearam o desastre mais temido, que seria uma imensa depressão global. Ainda há poucos meses, parecia que o serviço havia sido muito bem feito. Os cenários da recuperação eram positivos: a economia global crescendo pouco mais de 4,5% neste ano; os Estados Unidos crescendo bons 3,4%; a zona do euro, sempre mais lenta, um pouco menos de 2%; e a Alemanha podendo emplacar a ótima média de 3% para 2010 e 2011. E os emergentes em ritmo acelerado. Estão vendo? diziam líderes políticos mundo afora.

Cantaram vitória antes da hora. Para alguns, os mercados foram à forra. De certa forma, é verdade. Mas não no sentido de que os gananciosos especuladores estariam cobrando mais uns trocados. O que os mercados estão apontando, quando derrubam as bolsas e elevam as taxas de juros cobradas de países europeus devedores, é justamente a incapacidade dos governos.

Não deixa de ter sua ironia. Neste momento, os governantes esperam que os mercados resolvam, ou ao menos administrem, os problemas econômicos e financeiros deixados pelos próprios governos. E os mercados estão pedindo que os governantes façam alguma coisa.

Ocorre que a saída da fase aguda da crise foi incompleta.

Considerem os países devedores europeus. Os governos de Portugal, Irlanda e Grécia puseram a culpa nos fundos e nos bancos quando estes passaram a exigir taxas de juros altíssimas para financiar as dívidas deles. Mas as dívidas já eram “impagáveis”. Nem fazendo economia brutal, deixando de pagar até as contas de luz e de água, aqueles governos conseguiriam pôr suas contas em dia.

Ora, essa situação de insolvência não ocorre de um momento para outro. Não se improvisa, como diria Nelson Rodrigues, são desastres longa e pacientemente construídos. No caso, viver muitos anos gastando mais do que se tem.

Por que, então, os bancos continuaram emprestando até bem pouco tempo atrás?

Simples. Porque eram títulos em euros – cujo fiador em última instância, financeiro e moral, é a Alemanha. Estão, agora, cobrando o fiador.

Daí o papel principal de Angela Merkel. E aqui o problema: a liderança da chanceler alemã está longe da tradição deixada por Konrad Adenauer, Willy Brandt e Helmut Kohl. A União Europeia mandou dinheiro para os devedores, mas e daí? Qual o plano de médio prazo para tirar aqueles países da estagnação e colocá-los na rota do crescimento?

Até aqui, estão quebrando galhos, às vezes até com eficiência. Mas daqui a pouco cai a árvore inteira. Durante muito tempo se disse que a Europa era assim mesmo: a sociedade do bem-estar social, impostos altos, muitos benefícios e serviços públicos. Não crescia mais nada, mas, e daí? Já era rica. Depois da acumulação, era hora de gozar.

Ocorre que o dinheiro não deu. Acreditava-se que acabaria na próxima geração, que teria de iniciar um novo ciclo de poupança. Mas o problema já está aí. Sucessivas lideranças levantaram a Europa de hoje: a reconstrução depois da 2.ª Guerra Mundial; o Estado do bem-estar social; a União Europeia; a unificação da Alemanha; o euro; a incorporação dos ex-socialistas. Belíssimo trabalho. E agora?

As lideranças atuais da Europa estavam mal-acostumadas. Parecia que era só tocar o serviço, sem complicar. Pois estão sendo chamados a tarefas mais complexas e parecem algo assustadas com isso.

Nos Estados Unidos, o panorama político é ainda pior. O aumento do teto da dívida pública, decidido na última hora, depois de semanas de confrontos, deveria ser uma providência simples e automática. É o mínimo de responsabilidade que se espera de um devedor como os Estados Unidos – a potência dominante, emissora da moeda global.

Pois diversas lideranças americanas pareciam não dar a menor atenção a essa responsabilidade. E também os Estados Unidos, como a Europa, precisam definir rumos para as próximas gerações. Há uma conta chegando para todos – governo, famílias e empresas, que também viveram à larga.

Se Hegel estava certo, a humanidade produz os líderes de que precisa na hora em que precisa. Parece que está na hora. Inclusive por aqui.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 08/08/2011

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