Presente envenenado

É natural que a honrada senhora presidente ande de ceca e meca e olivais de Santarém a semear otimismo ao seu reino e em outros reinos, pois se ela se dedicasse a propagar o derrotismo estaria o país em maus lençóis. Mas também é preciso a necessária serena coragem de dar tratamento próprio a respeito de um tema que interessa a todo o mundo; a propósito, no auge do cataclismo, quando o mundo parecia desfazer-se sob seus pés, Churchill não hesitou em proclamar, perante o império e o mundo, que nada tinha a oferecer senão trabalho, sangue, suor e lágrimas e com essa franqueza demarcou os tempos que estavam por vir. Dir-se-á que as condições do Brasil de hoje não se poderiam comparar às da Inglaterra de 1940 e disso ninguém duvida, da mesma maneira que nossa presidente em nada se parece com a figura de Churchill, mas a lembrança se me apresenta oportuna por mostrar que há situações que um governante não pode escamotear.

Se faço essas observações, de resto, vulgares, é porque a despeito do lirismo político e partidário coroado com a popularidade da senhora presidente, a situação social de larga faixa da nação vem se depauperando de maneira implacável e, se continuar nesse rumo, o quadro se tornará terrível. É que o endividamento familiar do Brasil é motivo preocupante e crescente. É tamanha a minha preocupação a respeito que dele já me ocupei mais de uma vez. Ocorre que, em edição de domingo, na primeira página, jornal de reconhecida influência pela objetividade de suas informações publicava notícia segundo a qual a “inadimplência bate recorde e o consumidor dá carro de graça para se livrar de dívida”. Esta realidade não era imprevisível e não faltou advertência no sentido de que a receita dos financiados se tornaria insuficiente para o resgate da dívida contraída, especialmente depois da generosa dilatação dos prazos em se tratando de veículos, 60 meses e até mais. Ora, os prazos longos são fáceis de aceitar, a imaginação os faz infinitos, segundo o nosso Machado de Assis. Historicamente, o carro era privilégio de um número pequeno de pessoas, que foi se alargando com o tempo e o progresso e agora muito mais, graças à facilidade de sua aquisição mediante financiamento em cinco ou mais anos de prazo.

O devedor que saboreava o prazer de ter o seu carro agora se vê de calças na mão

Segundo dados do Banco Central, nos últimos 12 meses, a inadimplência saltou 44%. A partir daí, quando o quadro se agrava, o financiado verificou que não terá condições para liquidar a sua dívida, e o próprio bem empenhado deixa de ser a garantia do credor, sabido que o uso do carro reduz significativamente seu valor de venda. Ora, isto importa em reconhecer que, muito antes do termo dos 60 meses, o bem dado como garantia torna-se insuficiente para quitá-la.

Segundo informam os conhecedores do mercado, um carro pode depreciar até 40% em um ano. Agora a gravidade maior veio à luz, na angústia em que se encontra o devedor que, até de graça entrega o seu automóvel, para liberar-se da dívida impagável e, cada vez mais, se repete o expediente. A indústria automobilística se expandiu como nunca, o governo arrecadou como nunca e, como nunca, o devedor que saboreava o prazer de ter o seu carro agora se vê de calças na mão. Este aspecto do fenômeno chega a ser patético dados seus efeitos perniciosos. E isso pode ser perigoso.

Fonte: Zero Hora, 23/04/2012

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2 comments

  1. H S Ferreira

    Diante do exposto, agradeçamos efusivamente ao presidente apedeuta, ao sir Ney e seu bando, sem esquecermos a nova burguesia do capital alheio, os petralhas, como sói conhecidos…

  2. H S Ferreira

    Corrigindo o emprego do verbo soer:
    Diante do exposto, agradeçamos efusivamente ao presidente apedeuta, ao sir Ney e seu bando, sem esquecermos a nova burguesia do capital alheio, os petralhas, como soem ser conhecidos…