Pátria e partido

Doze dias atrás, pela primeira vez na democracia, o Brasil ganhou uma “lista negra” semioficial de críticos do governo. A nota, publicada no site do PT pelo vice-presidente do partido, Alberto Cantalice, enumera nove nomes malditos entre eles, o deste colunista e, nesse passo, desvela a alma política de uma parcela de nossa elite dirigente. Substancialmente, o que existe ali é a pretensão autoritária de identificar a pátria ao partido.

Separemos o que é irrelevante. Ao responsabilizar os nove malditos pela recepção hostil do Itaquerão a Dilma Rousseff, o PT pratica uma inofensiva modalidade de terrorismo: tenta matar o país de tanto rir.

Isolemos o que é secundário. A afirmação de que os nove “estimulam a maldizer os pobres e sua presença nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes” não passa de uma calúnia primária destinada a aquecer militantes e pautar blogueiros palacianos.

O “controle social da mídia” não começará por um decreto governamental, mas pela prática da autocensura

O principal está alhures. A nota acusa os nove de “desgastar a imagem do país no exterior” ou seja, de trair a pátria. Por ridícula que seja, tal acusação traz uma marca inconfundível. Nos EUA, o macarthismo produziu suas “listas negras” por meio de um órgão parlamentar denominado Comitê de Atividades Antiamericanas. Desde a eleição de Obama, a ultradireita americana sugere que o presidente não nasceu nos EUA e/ou é muçulmano. A “pátria” torna-se, aí como no macarthismo, um pseudônimo da elite dirigente, não uma expressão do contrato nacional entre cidadãos livres e politicamente diversos. O PT ultrapassa uma barreira política e ética ao reclamar para si a propriedade da pátria.

A “lista negra” do macarthismo tupiniquim surgiu no dia 16, mas só chegou ao noticiário político dos grandes jornais brasileiros após a divulgação do protesto da respeitada entidade internacional Repórteres Sem Fronteiras, no dia 20. O pesado silêncio de quatro dias dos jornais, rompido aqui e ali por colunas de opinião, é uma notícia tão relevante quanto a própria “lista negra”. O “controle social da mídia” não começará por um decreto governamental, mas pela prática da autocensura.

O que aconteceria nos EUA se o Partido Democrata divulgasse uma “lista negra” de críticos do governo Obama, acusando-os de “desgastar a imagem do país no exterior”? O PT, como registrou a Repórteres Sem Fronteiras, é o partido governante. A “lista negra” do PT surgiu logo que Lula atribuiu à “mídia” e à “elite branca” a culpa pela hostilidade de torcedores à presidente. A nota de Cantalice não é um ato oficial de governo, mas fica perto disso. Significativamente, nenhuma voz do Planalto veio a público informar que o governo não compactua com listas de “inimigos da pátria”.

“Os integrantes dessa lista estão exultantes de serem chamados assim”, especulou um leitor que aprecia “listas negras” semioficiais (com a condição, suponho, de que seu nome não esteja nelas). Tudo é possível debaixo do sol, mas seria uma rematada tolice. Os nove “blacklisted” não partilham um credo político ou ideológico: aparecem juntos apenas por obra dos fabricantes de “listas negras”. Além disso, os nomes são circunstanciais: listas dessa natureza mudam ao sabor das conveniências, como admitiu certa vez o próprio Joseph McCarthy.

Joseph Cantalice McCarthy vive no tempo errado ou no país errado. Décadas atrás, no Brasil da ditadura, ele teria emprego assegurado na polícia política. Hoje mesmo, pode se candidatar com sucesso a um cargo de juiz no Egito, onde três jornalistas da Al-Jazeera foram condenados à prisão por “difundir notícias falsas” e –atenção à coincidência!– “manchar a imagem do país no exterior”. O problema é que, neste país e neste tempo, ele opera no almoxarifado do governo.

Tenho dois recados ao pequeno macarthista do PT: 1) Sua “lista negra” só incrimina o seu próprio partido; 2) A pátria é de todos.

Fonte: 28/06/2014, Folha de S.Paulo.

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