Ultimato, minhocas & peixes

Paulo Brossard

Quebrando a mesmice habitual, a semana passada se mostrou singular; um dos 30 partidos por que, presumivelmente, se reparte a opinião nacional, mediante seu presidente, fez declarações curiosas, as quais alguns acharam um tanto zombeteiras, outros viram nelas intenções ocultas, mas, de qualquer sorte, bem entendidas por sua real destinatária. Seja qual for a melhor inteligência da linguagem em causa, de uma virtude ninguém poderá negar, nem mesmo duvidar, a de sua clareza. Ele disse, sem meias palavras, “decidiram dar um ultimato ao governo federal”. Nada menos que ultimato. E para que ninguém pudesse tergiversar, “se não se desse reacomodação na Esplanada dos Ministérios, o PR, (isto é, partido ‘antimonárquico’), poderia até mesmo apoiar a candidatura de José Serra em São Paulo” e, com rara sutileza, em sentença lapidar completou “aí, a careca do Serra é linda”. Este o fato que quebrou a monotonia da semana.

Mas, como previram alguns observadores, o ultimato foi de tal objetividade, que a chefe do governo que conta com 359 em 513 deputados, e 54 senadores em 81, a honrada senhora presidente, que costuma bem refletir antes de decidir, em horas, submeteu-se ao ultimato, com expressões reveladoras de seu júbilo; com tamanha sede foi ao copo, que a divulgação do nome do novo ministro da Pesca se deu antes do despedido ter ciência de sua desministração, passando a figurar na lista dos vindouros. Aliás, o episódio faz lembrar o que foi dito a respeito de Calógeras, que por sua ilustração e variada competência era capaz de assumir qualquer das pastas ministeriais. Pois bem, para gáudio dos viventes do século recém-iniciado, é grato saber que em breve ter-se-á o novo Calógeras a ocupar nova pasta, qualquer que seja, e a careca do Serra tenha de deixar de ser linda.

Agora, laus Deo, o Brasil tem novo ministro da Pesca, apto a brilhar nas águas oficiais que, de tão piscosas, por vezes, é preciso “blindar” alguns pesqueiros. Enquanto a senhora presidente diz que o governo fica fortalecido com a nova aquisição, o novo ministro, não sei se por excesso de modéstia, confessa não saber “enfiar uma minhoca num anzol”. Como se vê, pequena discrepância entre ela e ele, mas isto é de somenos. O importante é que a careca do Serra tenha deixado de ser linda!

Em face da alta rotatividade no Ministério da Pesca, houve quem concluísse por sua inutilidade. Não participo desse entendimento, pois sua prestança me parece clara. Ele serve de moeda corrente de curso forçado para pescar pretendentes vários, inclusive de quem se sirva de ultimato, hipótese em que a solução é dada em horas.

Mas, por falar em peixe, estou a lembrar-me no Padre Vieira, que, foi em 1654, passados mais de quatro séculos, em São Luiz do Maranhão, em famoso sermão falou aos peixes, “que ao menos têm duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam”. Do ministro disse a presidente, em declaração original, estar segura de que “prestará relevantes serviços ao Brasil”, adiantando que a troca “permite a incorporação de um importante partido aliado da base do governo”.

Por fim, se o novo ministro não sabe colocar uma minhoca num anzol, como confessou, é de lembrar-se que antecessora sua, sem ser especialista em pescarias, representou o Brasil na FAO em conferência sobre peixe e não faltou quem tenha confessado que seu conhecimento de peixe não ia além do Linguado à Belle Meunière; de resto, nada quer dizer que não possa ele seguir as linhas do “Imperador da Língua Portuguesa”, como Fernando Pessoa se referiu ao Padre Antonio Vieira, e mesmo quando não se sentisse em condições de dissertar sobre peixes, ele pode estar em condições, pelo menos, de preparar uma boa peixada.

Sem dúvida, o ultimato valeu a pena e, ao que consta, outros estão em gestação.

Fonte: Zero Hora, 05/03/2012

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