Um trabalho estupendo

O Banco Central reclama da “resistência da inflação”, atribuindo aos mecanismos de indexação (a prática de reajustar preços e salários em linha com a inflação passada) as dificuldades que tem encontrado para cumprir sua meta.

Segundo o BC, “existem mecanismos regulares e quase automáticos de reajuste (…) que contribuem para prolongar (…) pressões inflacionárias”.

Há certa verdade nisso, embora, da forma como o argumento tenha sido posto, a existência desses mecanismos pareça resultar de processos sobre os quais o BC não tem nenhuma influência.

Supõe-se implicitamente que esse comportamento aflora por razões que nada têm a ver com a condução da política monetária, resultado talvez de questões históricas, culturais e -já que estamos no terreno especulativo- por que não também antropológicas e quiçá genéticas?

Embora reconhecendo que possa haver um tanto de história por trás da persistência da indexação no Brasil, particularmente no que diz respeito aos chamados “preços administrados”, alguns dos quais contêm cláusulas específicas de reajuste de acordo com a inflação passada, o problema é mais profundo e reflete fundamentalmente a posição do BC ante a inflação.

Não há como afirmar que os preços administrados tenham contribuído para a aceleração inflacionária

Para começar, não há como afirmar, sem enrubescer, que os preços administrados tenham contribuído para a aceleração inflacionária recente. Entre o fim de 2011 e março de 2013 (pela leitura do IPCA-15), a inflação de administrados caiu de 6,2% para 1,6%, o que representou impacto negativo de 1,3 ponto percentual sobre o índice.

Se a indexação é, portanto, responsável pela resistência à queda da inflação, é bom notar que não se trata daquela associada aos reajustes contratuais dos preços administrados, mas, sim, às práticas de mercado que determinam a evolução dos salários e dos chamados preços livres.

Nesse caso, é necessário explicar por que empresas e trabalhadores adotam tal prática e aí a responsabilidade do BC fica mais do que patente, por meio de dois canais distintos.

O menos maligno refere-se ao prolongamento do período de convergência. Havia algum tempo o BC parecia engajado num processo de convergência lenta da inflação para a meta.

Nesse caso, porém, se o BC traz a inflação aos poucos para baixo, o melhor valor para a inflação esperada deixa de ser a meta (que só vai ser atingida mais à frente) e passa a ser algum valor entre a inflação passada e a meta, afetando preços correntes.

Já o fenômeno mais pernicioso se relaciona aos erros de posicionamento da política monetária. É sabido que -para estabilizar a inflação- qualquer BC deve elevar a taxa real de juros em face de desvios para cima da inflação esperada relativamente à meta (e diminuí-la em caso contrário).

Entretanto, o Copom fez precisamente o oposto: a despeito de expectativas, tanto suas como do mercado, acima da meta, o BC veio reduzindo a taxa real de juros.

O resultado foi exatamente o que eu vinha alertando: em vez de convergência, divergência da inflação, apesar das medidas pontuais que mitigaram os impactos sobre os índices de preços.

Posto de outra forma, o BC deixa de agir para estabilizar a inflação e, portanto, a meta deixa de representar um valor que coordene as expectativas.

Enquanto o primeiro fenômeno deve ter sido mais importante para explicar o descolamento das expectativas em 2011, quando o BC ainda parecia se preocupar com o comportamento da inflação, o segundo descreve com precisão o período mais recente.

A indexação não é, portanto, a causa última da resistência da inflação à queda (mesmo porque não há motivos para que a inflação caia, à parte efeitos temporários de reduções de impostos e similares).

Trata-se, sim, do resultado de um trabalho estupendo do BC no sentido de cuidadosamente desancorar as expectativas de inflação após anos de trabalho árduo no sentido oposto. Quanto a isso, o Copom não tem do que se queixar.

Fonte: Folha de S. Paulo, 10/04/2013

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