Universidades de excelência

Na semana do dia 6 a 12 de março, bem a semana do carnaval, foram divulgadas duas listas: a de pessoas mais ricas segundo a revista “Forbes” e a das melhores universidades do mundo segundo o Times Higher Education (THE).

Quanto à primeira lista, nada de novo sob o sol: vários brasileiros. Vivemos em um país onde há recursos naturais a serem explorados, estamos vivendo um boom no setor financeiro com a inclusão bancária de milhões de pessoas (e os nossos super juros não machucam os bancos também) e a economia em 2010 esteve bastante aquecida. Resultado: gente ficando bilionária. Ótimo. Que invistam seus bilhões em novos empreendimentos, serviços e pesquisas tecnológicas para desenvolvimento de novos produtos.

Já a segunda lista é um pouco decepcionante. A Universidade de São Paulo (USP), universidade mais prestigiada do Brasil, que mais publica e que ainda é o sonho de tantos adolescentes de 17 anos que passam seus dias (e noites!) estudando, não está mais na lista das 200 melhores do mundo. Somos agora o único país dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China, que não formam de maneira alguma um grupo homogêneo, mas formam interessante base de comparação) que não ostenta uma universidade campeã.

Isso atesta o óbvio ululante que está em todos os jornais quase cotidianamente: nossa educação é péssima. A questão que fica é: como podemos melhorá-la? Eu, que não sou especialista em educação, mas venho de uma família de professores e mestres, que estou iniciando a minha carreira acadêmica e que estive durante 5 anos da minha vida em função da Universidade de São Paulo, ouso aqui dar algumas sugestões.

A primeira delas é ensino integral até o fim do primeiro ciclo educacional: a estrutura familiar mudou. Hoje, pais e mães têm compromissos profissionais, há muito mais mães e pais solteiros e há novas estruturas familiares se formando, como casais homossexuais que passam a adotar crianças (ainda é um imbróglio isso no Brasil, mas já começa a acontecer). Dessa forma, estar ao lado da criança ajudando-a e observando suas atividades fica mais difícil. Além disso, na escola a criança tem apoio pedagógico para realizar suas atividades. Claro que isso demanda recursos e obviamente não seria algo simples de se fazer no curto prazo. Mas ter uma meta ambiciosa é o primeiro passo para trabalhar por ela.

Para atingir essa meta, contudo, seria necessário obter mais recursos. A segunda sugestão, visando esses recursos é o fim da universidade gratuita.

Pessoalmente não sou contra o Estado investir em pesquisa acadêmica, em especial a básica, não aplicada, mas no Brasil o investimento estatal em educação superior é excessivo, em especial quando comparado ao investimento em educação básica. O resultado? Proporção baixa de alunos em nível universitário e alunos chegando a faculdades particulares praticamente semi-analfabetos (sei de uma história que o professor pediu aos alunos que digitassem “1.000” na calculadora e havia alunos digitando “1”, depois “ponto” e depois os 3 zeros!) Não adianta ensinar derivadas e integrais para o sujeito que mal sabe fazer equação de primeiro grau.

E a falta do ensino básico também traz problemas para quem não freqüenta a faculdade. Qualquer pessoa que conversa com empresários hoje sabe que horas de treinamento são necessárias porque as pessoas não desenvolveram, na educação básica, certas capacidades de raciocínio abstrato. Enquanto isso se gasta muito dinheiro público, arrecadado dos mais pobres (a USP, por exemplo, é bancada com o ICMS, imposto regressivo, ou seja, que atinge proporcionalmente mais a renda dos mais pobres) para que as pessoas de classe média que teriam recursos para pagar uma mensalidade, estudem de graça. Essas pessoas realmente contribuem tanto assim para a sociedade a ponto de valer o investimento? Tive a oportunidade de estudar na Europa durante seis meses e em muitos países a Universidade pública é paga. Contudo, ser paga não significa não ser subsidiada, ou seja, o Estado ainda investe, mas não na proporção brasileira.

A terceira sugestão também é voltada a universidades: é necessário desburocratizá-las. Quem está dentro da USP sabe que qualquer modificação passa por diversos conselhos, que a estrutura é demasiadamente hierarquizada e que ainda há resistência de muitos grupos em relação a ações em conjunto com a iniciativa privada. Isso atrapalha pesquisas, afasta o mercado das universidades e incentiva a morosidade na administração.

Por fim, ainda em relação a universidades, acredito ser necessário haver uma flexibilização de currículo. Não tenho nada contra formações específicas, mas essas são exatamente específicas. Não vejo sentido, por exemplo, em cursos similares não terem disciplinas em conjunto. Também não vejo sentido na escolha da área específica ser feita antes do vestibular e não após alguns anos estudando disciplinas básicas de uma área. O que temos é alto grau de evasão, professores ministrando as mesmas disciplinas e áreas similares não conversando entre si.

Espero que os futuros mestres e doutores do país estejam refletindo sobre Educação também. Gostaria muito de ver um debate que saísse da demagogia habitual da universidade “pública, gratuita e de qualidade”. Porque isso, como podemos ver olhando para o lado, é inviável, excludente e oneroso.

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5 comments

  1. Um país onde engenheiro formado pela PUC escreve errado no twitter e nem se dá conta, tão cedo não vamos ter universidades na lista dos 200. Mandou bem, Carol!

  2. CR

    Infelizmente nosso parco sistema de ensino foi montado ao sabor positivista, na época já anacrônico em metade da Europa. Uma reversão desse porte é gigantesca.

  3. Oi Carol,
    excelente o seu artigo. Em particular a sua terceira sugestão. No ranking das universidades é levado em conta a receita com patentes. E isso tem tudo a ver com o valor da inovação para o mercado.
    Abs,
    Cristiano

  4. 1berto

    Carol, eu estou enganado? Não achei nenhuma universidade Russa na lista (não que isto desmereça seu argumento).

  5. 1berto

    Para mim as universidades poderiam ser (no mínimo) como as estatais cobrar mensalidades e se manter com elas (ainda seriam cabides de empregos, mas menos mal) e o governo poderia dar bolsas e financiamentos a pessoas que realmente fossem carentes, além de pagar valores a pesquisas mensalidades para a universidade quanto para o jovem pesquisador.