Domingo, 11 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Pulso

Pulso, batimento, movimento do sangue no corpo. Pulso não é sinônimo de punho, a articulação da mão com o antebraço, vulgarmente chamado de pulso. Contudo, uma pessoa firme em suas decisões, que não cede às pressões, que não arreda o pé quando confrontada, tem pulso. Outra, mãos fechadas em expressão defensiva quando afrontada por perigo qualquer, tem punhos cerrados, mas não pulso. Punho ou pulso? O que, afinal, caracteriza o governo de Michel Temer até agora?

O governo começou com demonstrações de pulso firme. Mudou tudo na equipe econômica. Propôs medidas e reformas ambiciosas e essenciais. Encerrou o período de catatonia que marcara o fim da era Dilma Rousseff – a presidente afastada ainda não passou pelo julgamento final, mas é justo afirmar que sua era acabou. Michel Temer pôs no Ministério das Relações Exteriores político capaz de encerrar o nefasto isolacionismo brasileiro em nome de uma ideologia para lá de ultrapassada. Reduziu sumariamente os penduricalhos dos anos petistas, extinguindo milhares de cargos comissionados. Ao lado de seu ministro da Fazenda, prometeu consertar as contas públicas com a adoção de teto para os gastos, uma profunda reforma da Previdência, um programa de privatização. Privatização, palavra proibida nos tempos de Dilma. Tais atos e sinais, ideia de pulso firme, enraizaram nas cabeças dos investidores e do mercado financeiro. Os ativos recuperaram parte do valor perdido. A Bolsa subiu, o dólar caiu.

Contudo, entre acertos e boa retórica, o pulso firme enfraqueceu. Enfraqueceu ante a constatação de que a política é a mesma, os políticos, os mesmos – inclusive o próprio presidente interino. Michel Temer deu ar de novo ao que de novo nada tinha. Entre a necessidade de manter o pulso firme para arrebanhar a confiança e de cerrar os punhos para melhor se defender das inevitáveis pressões, a determinação e a ousadia cederam. Cederam rápido.

Temer interino assumiu a presidência da República em 12 de maio. Nesses três meses de governo, não aprovou nenhuma de suas propostas – sobretudo a emenda constitucional para a criação de um teto para os gastos, a PEC do Teto. Elaborou mas não discutiu com a sociedade brasileira suas propostas para a reforma da
Previdência. Alguns detalhes, veiculados pelos jornais nos últimos dias, não são compreensíveis para a maioria da população brasileira, que, nesse momento, desvia sua atenção para os Jogos Olímpicos – e, claro, para a exposição das mazelas nacionais retratadas nas manchetes dos periódicos de grande circulação internacional. Como acreditar numa reforma ambiciosa da Previdência que não foi debatida e explicada àqueles que por ela serão afetados? A falta de debate sobre grandes temas, outra mazela brasileira duramente exposta nesses tempos bicudos. “Ah, mas o País estava paralisado em razão do impeachment”. “Ah, mas como fazer qualquer reforma enquanto prevalece a interinidade?”.

Reconheço a dificuldade. Mas não creio que após a remoção definitiva de Dilma um novo governo nascerá, um sistema político menos infame surgirá no País. As dificuldades hão de ser muito semelhantes. Quiçá serão as mesmas, com as eleições municipais no horizonte próximo, as discussões prematuras sobre candidaturas para 2018.

Nesses três meses de governo, Temer concedeu reajustes salariais ao funcionalismo público em dissonância com seu discurso de austeridade. Renegociou as dívidas estaduais impondo contrapartidas que acabam de ser relaxadas ante a pressão dos governadores e de membros de seu próprio governo. Prometeu que as condições para os cortes de juros serão construídas, mas a verdade é que a nova diretoria do Banco Central ainda pouco acredita que isso seja possível. Tanto que evitou reduzir os juros. Tanto que preferiu apoiar o aperto das condições monetárias ao nada fazer em sua primeira reunião. Aperto sim, uma vez que, com a queda das expectativas de inflação, a taxa de juros real – a que desconta a inflação e reflete o custo do investimento – subiu. Subiu em meio à recessão que ainda é avassaladora, aos 11,6 milhões de desempregados.

Em meio a tudo isso, o pulso ainda pulsa. Porém, pulsa de modo pulsilânime num País onde o corpo ainda é pouco.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 03/08/2016.

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