Qual é a âncora?

O Banco Central admite que teremos mais inflação e menos crescimento em 2011. Em suas novas previsões, a inflação sobe de 5,0% para 5,6%, e o crescimento cai de 4,5% para 4,0% neste ano. Para o BC, a culpa é das pressões de custos de energia, de alimentos e de matérias-primas, que se infiltraram por toda a economia.

Essas pressões teriam afastado a inflação corrente do centro da meta de 4,5%. E empurrariam a inflação futura contra o teto de 6% ao ano, que poderia ser ultrapassado nos próximos trimestres. A principal tarefa do BC seria evitar os repasses automáticos dessas pressões de custo para os preços ao consumidor.

É importante bloquear a propagação do choque de preços de comida e combustíveis para os demais setores da economia. O risco de repasses generalizados é a contaminação das expectativas inflacionárias, tornando improvável o arrefecimento dos reajustes de preços e sua convergência para o centro da meta mesmo em 2012.

Em outros tempos, o BC já teria disparado bem antes e com maior intensidade o processo de alta de juros. Mas agora, sob nova orientação, recorre a medidas “macroprudenciais” para desacelerar a expansão de crédito na economia. A instituição estaria agora trabalhando em um novo contexto de cooperação com o Ministério da Fazenda, encarregado de apertar os parafusos da política fiscal expansionista de 2009- 2010. Os impactos inflacionários do choque de preços das matérias-primas seriam transitórios, e as medidas macroprudenciais, somadas à maior cooperação da política fiscal, permitiriam ao BC combater a inflação com uma alta de juros menos contundente.

Mas há outra leitura da atuação do BC se disseminando nos mercados financeiros. A admissão de ter sido apanhado de surpresa é uma confissão de atraso em relação às expectativas inflacionárias. E, pior ainda, esse seria um sinal de capitulação do BC às exigências políticas de juros mais baixos, e não de maior cooperação de uma política fiscal contencionista, pois a credibilidade do aperto fiscal é ainda muito baixa.

Tudo isso desloca o foco de atenção para o Ministério da Fazenda. Uma atuação firme no controle de gastos reforça o trabalho do BC, dificulta o repasse de custos, estimula expectativas favoráveis e aumenta as chances de interromper a alta e fazer refluir a inflação em 2012-2013. Afinal, qual é a âncora do esforço anti-inflacionário?

Fonte: O Globo, 04/04/2011

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