Quando 2018 chegar

Durante anos, trabalhando no governo na década de 90, meu papel era falar bem do Brasil. Não era fácil. Mesmo quando as coisas melhoraram depois de 1994, na segunda metade da década, e apesar dos esforços da equipe do ministro Malan, o déficit público ainda foi, em média, de mais de 5% do PIB. Eram os anos de glória de Clinton, a economia americana tinha superávit fiscal, o FMI cantava de galo e ficar aqui falando bem de um país ainda confuso implicava lidar com estrangeiros que olhavam para nós com ar superior.

O tempo passou e quando, anos depois, veio a crise de 2008, o mundo ficou de pernas para o ar. A rigor, nossa política fiscal não era nenhuma maravilha e o déficit público, embora inferior ao dos anos 90, em 2009 foi de mais de 3% do PIB. Porém, quando quem antes se arvorava a ditar regras para o mundo exibia um desequilíbrio da ordem de 10% do PIB, em termos comparativos tínhamos virado um bom exemplo.

John Kennedy disse certa vez que “a fórmula do sucesso não existe, mas a do fracasso é tentar agradar a todos”. Quando, na crise, Lula em 2009 abriu o saco de bondades, distribuindo gastos, isenções e benefícios a torto e direito, ele provavelmente plantou a semente do seu êxito em 2010, mas paralelamente criou as raízes para o fracasso dos anos posteriores, agravado pelas políticas adotadas nos anos seguintes.

O desafio para o Brasil não é apenas como passar por um 2015 difícil, marcado pelo encontro com a realidade pós-eleitoral e pelo fim dos estímulos monetários nos EUA

Na vida, tudo é relativo. Quem bebe uma garrafa de vinho por dia pode ser julgado como um bêbado diante de quem é abstêmio, mas será considerado sóbrio se outra pessoa tomar um pileque. O fato é que passamos a nos ver como baluartes de bom comportamento, não porque tenhamos sido muito virtuosos (não fomos) e sim porque, em 2009, nada no mundo era normal, com os EUA parecendo à beira da bancarrota e a Europa no chão. Nesse contexto, os juros internacionais desabaram, para que o mundo não vivesse um caos que fizesse a recessão dos anos 30 parecer uma simples crise conjuntural de segunda categoria.

Vou citar alguns dados, para o leitor ter ideia da magnitude do processo. Os juros longos de curto prazo dos EUA (os Fed funds) em termos nominais, em média, foram de 7% nos anos 80 e de 5% na média de 1991 a 2000. Pois bem, desde o final de 2008 eles estão perto de zero. Já os juros longos do Tesouro dos EUA (dez anos), também em termos nominais e que ainda em diversos meses de 2007 chegaram a estar perto de 5%, caíram depois da crise para uma média anual de 3% durante 2009/2011 e 2% em 2012. Depois disso, eles oscilaram, influenciados pela expectativa de recuperação dos EUA, mas continuam ainda em 2%.

Os determinantes principais da taxa de juros na economia são: 1) o nível de juros nos EUA;2) o indicador de risco-país;3) o estado da atividade.

No Brasil, a taxa de juros mais importante no noticiário é a Selic, mas o indicador de longo prazo da confiança do país é dado pela taxa de juros de mercado dos papéis pré-fixados mais longos (NTN-F), por exemplo de dez anos, comparáveis com a citada taxa dos EUA. Pois bem, essa taxa nominal de dez anos, que no Brasil — com juros nos EUA em níveis historicamente baixos, risco-Brasil perto do piso e a economia brasileira mal das pernas, em fins de 2012/começo de 2013 — chegou a flertar com o nível de 9%, encontra-se hoje em torno de 12% a 13%. E isso ainda com a taxa curta dos EUA perto de zero e a taxa de dez anos em 2%.

Enquanto o Brasil se vangloriava de poder supostamente dar lições aos “brancos de olhos azuis”, a Alemanha colhia os louros do ajustamento do seu mercado de trabalho e diversos países passavam por um “aperto de cintos” que, em alguns casos, chama a atenção pela sua magnitude. Tudo isso, enquanto a China e a Ásia continuaram a exibir altas taxas de crescimento.

Nesse contexto, o desafio para o Brasil não é apenas como passar por um 2015 difícil, marcado pelo encontro com a realidade pós-eleitoral e pelo fim dos estímulos monetários nos EUA. A questão é como nos prepararmos para quando 2018 chegar, com Fed funds de novo em torno de 3,5% a 4% e taxas de dez anos entre 4,5% e 5%. Do que fizermos nos próximos três anos dependerá saber se na época, com 5% de juros externos, 3% de risco-país e 4% de diferencial de inflação, teremos que conviver permanentemente com uma Selic de 13% ou não.

Fonte: O Globo, 13/4/2015

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