Quando os discípulos superam seus mestres

Sou muito grato pelos meus 11 anos como aluno do Colégio Santa Cruz, em São Paulo. Não só pelas amizades que fiz, mas também pela excelente formação que recebi graças ao trabalho de tantos professores dedicados e que estão entre os melhores do ramo.

Contudo, devo dizer que me decepcionei ao ler a carta aberta, escrita em nome de toda a comunidade de professores, justificando sua adesão à paralisação da última sexta-feira [28 de abril]. A decepção não veio da decisão de paralisar as atividades em si. Discordo dessa decisão, considero-a profundamente equivocada, mas compreendo que é algo que os professores tenham como último recurso para protestar em momentos que julguem de extrema importância.

O problema da carta dos docentes é a atitude por eles adotada, atitude que parece ser a regra em quase toda manifestação ou ato da esquerda brasileira: uma tentativa de sinalizar as próprias boas intenções desprovida de qualquer preocupação em entender o que está em jogo.

Em vez de argumentos sobre a reforma da Previdência e a trabalhista, apenas a convicção de que elas retiram “direitos” da população. Nenhuma menção ao déficit da Previdência, nenhuma menção ao elevado índice de desemprego natural brasileiro, ao nosso volume recorde mundial de ações trabalhistas ou ao fato de que 50% de nossa força de trabalho opera na informalidade. Ou seja, incapacidade de enfrentar o óbvio: direitos escritos no papel, por mais generosos que tentem ser, não passam de papel.

Em vez de lidar com essas questões sérias, somos brindados com outro tipo de argumento: longas citações de autoridades como o papa Francisco, o padre Charbonneau (um dos fundadores da escola) e de Lacordaire, um filósofo católico do século XIX. Todas elas usadas com a mesma finalidade: o apelo emocional de que precisamos proteger os direitos da população. E a premissa implícita de que quanto mais ampla a legislação, melhor eles estarão defendidos.

A discussão econômica chata é deixada de lado, terceirizada com referências a órgãos de classe como a OAB e até mesmo a CNBB, que se posicionaram contra as reformas. Essa manobra permite à carta dos professores, inclusive, defender que o Brasil precisa é de leis trabalhistas mais duras e Previdência estatal mais generosa. Há uma causalidade direta entre a boa intenção que formula a lei e os bons efeitos que a lei tem de gerar.

Boas intenções, inegável preocupação humanista. Tudo isso estava na carta dos professores. Mas era só isto: bons sentimentos, citações de medalhões e o tom institucional e moroso de documentos coletivos.

Felizmente, a carta não ficou sem resposta. Um grupo de alunos elaborou um contraponto aos professores. O contraste é gritante. Os estudantes já começam bem, não atribuindo à própria opinião o manto de toda a classe estudantil. A carta é assinada. E, por isso mesmo, traz uma inteligência viva à discussão.

Os alunos recusam a saída fácil de vestir o manto da superioridade moral. Em nenhum momento acusam as intenções dos professores ou das reformas propostas. Pelo contrário: partem da premissa de que os professores têm boas intenções  e tentam mostrar que o caminho proposto por eles, contudo, não levará a bons resultados. Que ou o Brasil reforma a Previdência ou quebra. Não monopolizam a virtude; apontam para uma divergência real de entendimento em jogo.

Em seus argumentos, a carta dos alunos vai na jugular: levanta pontos relevantes sobre as reformas em debate. O tamanho do déficit da Previdência, as benesses do funcionalismo público, quanto o Brasil gasta com Previdência (embora seja um país jovem) comparado ao resto do mundo, revela aspectos regressivos da Previdência atual. Enfim, argumentam com base em dados e fatos.

Você pode concordar ou discordar dos alunos (eu concordo). Pode apresentar outros dados que julgue mais corretos, pode contrapor o argumento deles com outros raciocínios. Mas é impossível a qualquer leitor não reparar no desnível  argumentativo de ambas. Na primeira, dos docentes, apenas a afirmação de boas intenções e de abnegada preocupação com a justiça social, deixando implícito que adotar a posição contrária é carecer dessas virtudes. Na segunda, dos alunos, enfrentamento direto das questões em jogo, usando dados e fatos.

O que podem as platitudes edificantes de uma CNBB contra o fato bruto do déficit previdenciário que ameaça engolir o país? Graças à cegueira inspirada por supostos bons sentimentos desde que a reforma foi proposta, ela vem sendo cada vez mais mutilada para servir a interesses particulares e reduzindo os enormes ganhos que a proposta original trazia, por exemplo, para acabar com os privilégios do funcionalismo. A revolta contra a reforma trabalhista perpetuará o desemprego e a informalidade ao mesmo tempo que tenta garantir a renda fácil do imposto sindical. Curiosamente, a regra se repete: a consciência social mais elevada, o ardor na luta pela justiça social têm o estranho hábito de servir aos grupos mais privilegiados encastelados no poder.

Seja como for, a réplica dos alunos cria uma oportunidade única para o Colégio. Neste momento, em que cada vez mais o conteúdo ideológico do que é passado em sala de aula vem sendo debatido e questionado pela sociedade, é o momento de acolher a dissidência de estudantes e promover o debate dentro das próprias escolas. O silêncio e o fingir que nada aconteceu são as respostas mais pobres possíveis.

Não é crime nenhum ter posicionamento e usar as próprias referências na hora de dar aula. Seja de que lado do espectro ideológico for, o bom professor estimula a inteligência de seus alunos a pensar por conta própria, mesmo que isso signifique ir contra o que o mestre ensinou. A desigualdade das cartas é um fato, mas também é um fato que o meu Colégio tem estudantes seguros de si e que não têm medo de pensar por conta própria. Diante disso, tenho de dar o braço a torcer. Professores do Santa Cruz, vocês estão de parabéns: continuam formando excelentes alunos!

Fonte: “Época”, 28 de abril de 2017.

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