Timothy, que não é Leary, viaja sem o auxílio de aditivos químicos. Na madrugada de 28 de março, alguém usou álcool para incendiar a porta dos apartamentos de dez estudantes africanos, na Universidade de Brasília (UnB). As vítimas escaparam pela janela. No mesmo dia, antes que as superfícies calcinadas esfriassem, o reitor Timothy Mulholland extraiu conclusões definitivas: “A democracia sofreu um atentado. O Brasil é um país racista e a UnB é uma universidade de alma racista.” Homem de ação, tanto quanto de palavras, Mulholland crismou a data como “Dia da Igualdade Racial” na universidade.

Mesmo o exagero tem limites. Seria o crime supostamente cometido por alguns supremacistas brancos a prova cabal de que a Nação sucumbiu ao racismo? É razoável atribuir à UnB, como instituição e comunidade acadêmica, a culpa coletiva pelo feito ignóbil de um hipotético fanático da “raça”?

Mulholland gritou fogo quando uma declaração da ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria da Igualdade Racial (Seppir), incendiava os espíritos. Ela interpretou como “natural” o preconceito de “negros” contra “brancos”, que no fundo não seria preconceito algum, apenas um bem fundamentado conceito sobre a História: “Aqueles que foram açoitados não têm obrigação de gostar de quem os açoitou.” Em nome do Estado, a ministra disse que 1) a Nação se divide em “brancos” e “negros”; 2) os “brancos” representam no presente os proprietários de escravos do passado; 3) os “negros” representam no presente os escravos do passado; 4) a culpa coletiva e histórica dos “brancos” confere legitimidade à desforra dos “negros”.

Matilde Ribeiro desafia a ciência e se insurge contra o princípio da cidadania. A ancestralidade genética não encontra expressão nos fenótipos “raciais”. Anote, ministra: existem “brancos” que descendem de escravos e seus antepassados podem ter sido “açoitados” por “negros” descendentes de proprietários de escravos.

No pensamento moderno, as pessoas se definem pelas suas potencialidades, ou seja, pelo presente e o horizonte futuro, não pela descendência ou linhagem de sangue, ou seja, pelo passado. Ninguém é culpado por atos de seus antepassados diretos, muito menos por atos de imaginários antepassados “raciais”. É por isso que os conceitos de cidadania e raça são mutuamente excludentes.

O reitor gritou fogo, antes ainda do início das investigações policiais, para fornecer sustentação empírica aos argumentos “teóricos” da ministra. Ambos estão engajados num empreendimento de engenharia social cujo fim é a reivenção do Brasil.

Na Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios de 1976, milhões de brasileiros produziram 136 respostas inesperadas para o quesito de cor/raça. Os “acastanhados”, “bronzeados”, “moreninhos”, “queimados-de-sol”, “sararás” e dezenas de eteceteras somaram mais de dois quintos da população, que não se reconheciam nas cinco categorias censitárias do IBGE. A prova de que a “raça” não deitou raízes fundas no Brasil foi interpretada como “falsa consciência” pelos agentes do pensamento racialista, articulados internacionalmente e financiados pela Fundação Ford. Eles iniciaram ali uma jornada de retificação das mentes, com a finalidade de fabricar as duas raças polares na consciência das pessoas. A Seppir, as cotas, o Estatuto Racial e o grito de “fogo!” de Mulholland são instrumentos a serviço desse programa.

A classificação legal e compulsória de raças, complementada pela promessa de cotas para “negros” na universidade, no serviço público e no mercado de trabalho, se destina a fabricar nas estatísticas uma “raça negra”, convertendo os “impuros” à declaração racial “correta”. A difusão oficial do discurso do “orgulho de raça”, apoiado nos pilares paralelos da vitimização e da redenção, se destina a fabricar nas mentes a “raça negra”: os “negros” consagram a sua “negritude” quando aprendem a identificar nos “brancos” os opressores.

Estado, economia e classes sociais são conceitos abstratos que formam a paisagem complexa da política democrática. O ponto de fuga é a produção de um inimigo “concreto”, facilmente identificável pela religião, linhagem ou aparência: o “muçulmano” na Bósnia, o “judeu” no Reich alemão, o “tutsi” em Ruanda, o “imigrante” na França, o “chinês” na Malásia. No Brasil, sob a regência de Matilde Ribeiro, apaga-se a classe social e se inscreve no lugar a “raça” para erguer uma narrativa na qual os “negros” sofreram e continuam a sofrer os “açoites” da “elite branca”. É um flerte, consciente ou não, com a estratégia política de semeadura de ódio.

A UnB de Mulholland é um campo de provas da engenharia das raças. Nela se introduziram as cotas raciais e um “tribunal da raça”, na forma de uma comissão que certifica, pelo exame de fotografias, a “negritude” dos candidatos inscritos no sistema de cotas. Sob o silêncio cúmplice da reitoria, estudantes-ativistas gravam aulas em busca de pretextos para acusar docentes de “racismo”. A raça converteu-se em obsessão, e divergências de opinião ou desentendimentos casuais adquirem sentidos estapafúrdios na tela política da racialização.

Dias depois do incêndio criminoso no alojamento estudantil, a polícia começou a desvendar uma trama de rixas crônicas entre moradores. Festas de arromba, barulho noturno e brigas banais figurariam entre as motivações dos incendiários. Na lista de suspeitos apontados pelas vítimas há um estudante que se descreve como “negro” e outro identificado como “pardo”.

Os policiais, aparentemente, afastaram a hipótese de atentado de cunho racista. As suas conclusões serão impressas, cedo ou tarde, numa nota de página interna dos jornais. No registro histórico, porém, já ficou impressa a versão do reitor, que conta com as vantagens do selo oficial, da precedência temporal e da perenidade solene de uma nova data de memória. Timothy, que não é Leary, viaja com um galão cheio de álcool inflamável e um estoque de caixas de fósforos.


Por Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP

Deixe um comentário