Não, fabricar iPad no Brasil não é um avanço tecnológico expressivo. Há uma maneira muito fácil de verificar isso. Basta ler o que está impresso no tablet, na parte de trás, abaixo da marca: “Desenhado pela Apple na Califórnia — Montado na China.”

A ciência, a tecnologia e a inovação, mais o trabalho qualificado, geram o valor. Montar o aparelho numa fábrica, assim como montar celulares ou computadores, é como produzir comodities. Como a Apple, a Intel também mantém seus centros de pesquisa e desenho nos EUA e monta chips em diversos países emergentes.

Quando o presidente Obama se refere à capacidade da economia americana de sair da crise e voltar a crescer, ele lembra: este é o país do Google, do Facebook, dos iPhones e iPads, nenhum fabricado lá.

Reparem também na Coréia do Sul, cujas companhias são como a Apple, criadoras de tablet, e, eventualmente, montadoras.

Sim, é bom ter uma planta de montagem de iPads no Brasil. No mínimo, gera empregos. Logo, é boa a notícia que a companhia chinesa deu à presidente Dilma. Mas há muitos aspectos a observar.

Suponha, por exemplo, que os chineses mandem todos os componentes apenas para serem encaixados e embalados aqui. Seria uma submontagem, uma terceirização do contrato obtido pela companhia chinesa com a Apple. Vai começar assim, que é mais fácil, prevendo-se um aumento do componente nacional brasileiro ao longo do tempo. Isso, entretanto, dependerá de muitos fatores envolvendo o custo Brasil.

Também não é certo que o made in Brazil saia mais barato do que o importado — ou seja, não é certo que o consumidor tenha um benefício direto. O problema aqui, de novo, é o custo Brasil — o que inclui impostos, elevadíssimos, e todo um ambiente de negócios restritivo à empresa privada.

Trata-se de um pecado admitido. Tanto que o Ministério do Desenvolvimento está examinando a possibilidade de incluir os tablets no sistema chamado “Processo Produtivo Básico”, o que possibilitaria uma sensível redução dos impostos IPI, federal, e ICMS, estadual. Também existe a possibilidade de se incluir os tablets na categoria computadores, o que eliminaria os impostos PIS e Cofins, federais.

Para se beneficiarem desses regimes especiais, as empresas fabricantes terão que acertar metas e cotas com o governo. De todo modo, sem esses benefícios não tem negócio. Por que os chineses fabricariam aqui mais caro? Só se tivessem a garantia do governo brasileiro de que a importação seria restringida — criando-se mais uma distorção, mais um regime especial para alguns.

Tudo considerado, temos aqui diversos exemplos de problemas que envolvem as condições de crescimento no Brasil. Primeiro, estamos fora do lado mais valioso da indústria da Tecnologia de Informação, que está no desenho, na capacidade de inovação, na geração de novos produtos a partir de novas ideias. Essa indústria é o resultado direto de boa educação e de um ambiente de negócios que facilite a vida de empreendedores que transformam ideias em produtos. E atenção, um ambiente favorável a todos, não apenas aos que conseguem favores do governo.

Nosso atraso em educação e, pois, na falta de trabalho qualificado, é notório. (Escolaridade média do trabalhador brasileiro, sete anos; do trabalhador americano e do coreano, 13 anos.)

O ambiente de negócios só funciona na base do quebra-galho, ou seja, de redução de impostos aqui e ali, beneficiando algumas indústrias, alguns seto res, em detrimento dos demais que estão na vala comum.

Mesmo os privilegiados não têm a vida fácil. Precisam gastar tempo, energia e dinheiro mantendo azeitados os canais de comunicação com os burocratas do governo.

Tudo isso para dizer que trazer a montadora de iPads é um vistoso lance diplomático, mas é pouco quando se pensa numa estratégia de longo prazo que favoreça a instalação aqui da indústria de ponta.

Como está funcionando? O governo, ou melhor, a presidente, diretamente, acerta com uma multinacional as condições para que esta se instale no país. É uma tática.

O que seria objetivo estratégico? A redução do custo Brasil, com: menos impostos e sistema tributário mais racional; facilidades para fazer negócios; governo mais eficiente e menos gastador; e melhor infraestrutura, tudo para aumentar o investimento privado. E um empenho total na educação.

E os juros? Sim, também precisa reduzir os juros, a questão essencial da política econômica hoje. Mais que isso, é preciso recombinar a dupla juros/dólar — tema de próxima coluna. Há boas propostas na praça.

Fonte: O Globo, 14/04/2011

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