Que sinais o Brasil pode captar do “Brexit”?

O governo britânico acaba de formalizar a Bruxelas sua decisão de deixar a União Europeia. O “Brexit” provavelmente representa o principal evento geopolítico desde a queda do Muro de Berlim.

Daqui a três anos e meio, os eleitores podem mandar o atual titular da Casa Branca de volta para a Trump Tower. Se isso acontecer, os EUA tenderiam a reassumir um discurso de liderança na abertura de mercados e na cooperação com seus aliados. Embora a eleição de Donald Trump carregue impactos globais potencialmente maiores — dada a própria envergadura do poder norte-americano —, ela não dispõe do mesmo grau de “perenidade” que o “Brexit” implica.

Washington poderia reconectar-se a projetos como o TPP (Parceria Transpacífico) ou voltar a desempenhar um papel construtivo nas tratativas globais sobre o clima. O mal que Trump pode causar aos EUA e ao mundo, excetuando-se é claro o campo militar, é hipoteticamente enorme. Contudo, o próprio ciclo democrático tem condições de corrigi-lo.

O “Brexit”, por sua parte, marca um divórcio de mais de quatro décadas entre Londres e o continente. E, ainda que acordos comerciais e políticos entre britânicos e a UE sejam possíveis e prováveis, nada será como antes. Uma reversão completa daqui a alguns anos — um “brentrance”— não é concebível num futuro próximo.

A separação entre Reino Unido e UE emite ao Brasil sinais importantes. Alguns tem a forma de aprendizado. Outros, de oportunidades que se abrem. As razões que conduziram ao “Brexit” são diferentes das que levariam a um desmantelamento do Mercosul. Fica, porém, a clara lição de que a integração regional não é destino, e tampouco “estado natural” das relações internacionais.

Na Carta Magna brasileira a integração dos povos latino-americanos configura objetivo constitucional. Em nosso passaporte, logo na capa pode-se ler a inscrição “República Federativa do Brasil” e, próximo a ela, “Mercosul”, como se esta fosse uma realidade inescapável da condição nacional.

As experiências de nossa participação no Mercosul e em outras dinâmicas de integração regional, muitas delas fracassadas, ressaltam no entanto que nada pode ser considerado eterno. O Mercosul estaria em melhor estado se houvesse algum avanço em áreas específicas, como liberalização comercial ou integração logística.

De pouco valeu o dispêndio de tempo e energia na busca de objetivos mais ambiciosos ou grandiloquentes, como o de uma moeda comum ou a emissão de comunicados em que os países do grupo se posicionam sobre o processo de paz no Oriente Médio. Os dois sócios de maior economia no Mercosul — Brasil e Argentina — continuam com enorme desafio de sua harmonização fiscal interna ainda à frente.

Mais do que ensinamentos, o “Brexit” também traz oportunidades bastante concretas para o Brasil. Na fase de transição que agora se inicia, Londres quer mostrar, no âmbito do comércio, que está “aberta para negócios”. Os governo britânico quer agilizar — ao menos é este o tom que Theresa May vem apresentando ao mercado — alguns resultados concretos em termos de acordos comerciais.

Aqui, vale sublinhar que nas muitas e difíceis negociações dos países do Cone Sul com a UE, o ator europeu com menos restrições à liberalização em produtos agrícolas era o Reino Unido. Isso abre excelentes perspectivas para o Brasil, seja na dimensão país-a-país, seja num eventual acordo Reino Unido-Mercosul.

E o “Brexit” ainda tem o mérito adicional, da ótica brasileira, de “incitar” Bruxelas a também concluir rapidamente acordos comerciais. Isto já repercute num empenho maior dos europeus num acordo com o Mercosul.

O caminho adiante para o Reino Unido será acompanhado com atenção por todos os atores internacionais. Muitos apostam na transformação do “Brexit” em mais isolamento — um outro caso na já preocupante escalada protecionista em diversos países. Outros enxergam no divórcio a chance do Reino Unido voltar a ser um “global trader”. Se para este lado penderem os britânicos, o Brasil também pode ter muito a ganhar.

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 29 de março de 2017.

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