Quem, afinal, vai financiar o ajuste?

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O mais desanimador do atual momento político é constatar a distância que, cada vez mais, afasta a sociedade daqueles que foram eleitos para representá-la. Pegue-se, como exemplo disso, a decisão tomada pelo Congresso, e ratificada pela presidente Dilma Rousseff na segunda-feira passada, de triplicar o valor do Fundo Partidário – dinheiro que as agremiações políticas abocanham para falar bem de si mesmas. A proposta de Orçamento mandada ao parlamento falava inicialmente em R$ 289 milhões. Mas a turma achou a quantia modesta e resolveu por conta própria multiplicar a bolada para R$ 867 milhões.
 
Justamente nesse momento em que o dinheiro anda curto que suas excelências resolvem triplicar a verba que tomam da sociedade para sua autopromoção

Tudo bem. O valor parece uma ninharia diante dos números assustadores que volta e meia surgem na praça – como, para citar apenas um, os tais R$ 6,2 bilhões lançados no balanço da Petrobras como fruto da corrupção. Mas não havia momento menos oportuno para essa demonstração de generosidade em causa própria do que o atual. A cada dia a sociedade (sobretudo a classe média) se dá conta de que arcará sozinha com o ajuste fiscal anunciado pelo governo. Isso é triste e tem reflexos imediatos justamente naquilo que o governo deveria preservar: os empregos e o sustento das pessoas.

Quer um exemplo singelo da reação em cadeia provocada pela escassez de dinheiro no mercado? Aqui está: como está sendo chamado a pagar mais e mais impostos e a arcar com uma inflação que come um naco cada vez maior de sua renda, o brasileiro diminuiu os depósitos em caderneta de poupança. Em março passado, os saques na caderneta de poupança superaram os depósitos em mais de R$ 11 bilhões. Foi o pior resultado da história. Com a redução da poupança, a Caixa Econômica Federal se vê forçada a reduzir os empréstimos imobiliários. A redução, claro, repercute diretamente na saúde das construtoras. Que não conseguem manter o ritmo de atividade e se vêm forçadas a desacelerar suas obras.

Sem obras, não há trabalho, e o desemprego, claro, cresce. Isso sem falar no recolhimento de impostos que também despenca toda vez que a economia desaquece. A queda da arrecadação levará o governo, que não demonstra a menor intenção de reduzir a própria gastança, a aumentar ainda mais os tributos de quem já vem pagando a conta. E é justamente nesse momento em que o dinheiro anda curto que suas excelências resolvem triplicar a verba que tomam da sociedade para sua autopromoção.

Tudo bem. Partidos políticos são peças importantes no jogo democrático e em qualquer circunstância é melhor viver com eles do que sem eles. Quanto a isso, todos estamos de acordo. A questão é que toda vez que se fala em aperfeiçoar o sistema democrático, a conta acaba sobrando para o cidadão. Que, além de pagar a fatura, é obrigado a ouvir desaforos daqueles que consideram “coxinhas” todos os que se atrevem a criticar as mamatas financiadas com o dinheiro público.

Fonte: Hoje em Dia, 26/04/2015.

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