Quem é conservador no mundo?

O discurso que antagoniza “conservadores” a “progressistas” é característico do panorama político da Europa ibérica e da América Latina. Ambas palavras já serviram para contrapor monarquistas a constitucionalistas; escravocratas a burgueses liberais, e tantos outros embates.

Da Espanha à Argentina, passando, é claro, pelo Brasil, o significado de tais conceitos embaralhou-se ao longo do tempo.

Desfez-se aquela vinculação óbvia e natural que relacionava conservadorismo à manutenção de privilégios socioeconômicos e progressismo à rearrumação das camadas tectônicas do status quo.

Hoje, no mais das vezes, essa dualidade reaparece na retórica de legitimação dos que buscam credenciar-se “progressistas”. Sua arenga prega combate a injustiças sociais e às forças da globalização. Seu método tem por marcas o apego à hipertrofia estatal, protecionismo comercial, arroubos nacionalistas e um casamento de ocasião com o princípio de sociedade aberta. Eis teoria e prática dos progressistas.

Em sua vertente latino-americana, o progressista mira no inimigo “conservador”.

Este não é apenas aquele que por séculos se beneficiou do compadrio econômico e do patrimonialismo político. Ganha o mesmo batismo aquele que, por convicção, propugna virtudes da economia de mercado, livre iniciativa, democracia representativa e meritocracia. Vê na globalização um processo inevitável e, se bem aproveitado, positivo.

Em sua vertente latino-americana, o progressista mira no inimigo ‘conservador’

Já é hora de restabelecer, no panorama ibero-americano e mesmo global, o elo original da ideia de “conservador” como quem ganha com a inércia do que “está aí”.

Na China, são conservadores a velha guarda do PC que faz corpo mole ante as reformas liberalizantes de Xi Jinping. Temem que mais liberdade econômica venha de mãos dadas com mais liberdade política.

Na Índia, são as forças fisiológicas do Parlamento que atravancaram reformas econômicas por décadas até a recente eleição de Narendra Modi.

Na Rússia, os que sonham com a reedição da União Soviética ou projeto de grande potência vocacionada ao enfrentamento do Ocidente.

Na Europa, os “eurocratas” que engessaram Bruxelas a ponto de estigmatizar os ideais de integração comunitária e suscitar o ressurgimento do ultranacionalismo.

Nos EUA, se enquadram nessa categoria estratos da comunidade de defesa e inteligência que querem o retorno de um inimigo claro à imagem da Guerra Fria. Ou ainda defensores de um esplêndido isolacionismo e da aversão à participação dos EUA em pactos pluri ou multilaterais.

No Oriente Médio, autocracias sustentadas por petróleo e avessas a quaisquer movimentos de secularização.

Na América Latina e África, os que apoiam a ossificação das estruturas de poder a partir de dinastias ideológico-familiares em países como Cuba, Angola e Venezuela.

O mapa do “conservadorismo” no mundo contemporâneo apresenta, portanto, componentes dos mais curiosos e diversos matizes ideológicos. Em comum, o abraço às delícias e conveniências de um estado estacionário.

Fonte: Folha de São Paulo, 6/6/2014

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