Há créditos podres no mercado financeiro internacional. Isso significa que bancos e investidores não vão receber de volta o dinheiro que emprestaram e/ou investiram.

A origem desses créditos podres é singela: bancos e agentes imobiliários nos Estados Unidos emprestaram largas somas, inclusive para mutuários de ficha duvidosa, o pessoal do subprime, e muitos deles não estão pagando. Calcula-se que um em cada cinco mutuários esteja ou atrasando prestações ou não pagando.

Críticos dizem: eis uma conseqüência da farra do dinheiro abundante e barato, um produto da era de Alan Greenspan, o “maestro” que presidiu o Federal Reserve, Fed, o banco central dos Estados Unidos, e o mundo por duas décadas.

Não é simples assim. Houve, nos anos 90, uma política norte-americana de estimular a compra da casa própria, um setor que sabidamente é um dos motores da economia. Foram tomadas diversas medidas que ampliaram o crédito e reduziram os juros.

Os americanos foram às compras e – quer saber? – funcionou. O setor decolou, alavancou a economia norte-americana, e a mundial, e foi a salvação no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Nesse momento, a economia dos Estados Unidos e do mundo foi sendo sucessivamente abalada pelo furo das bolhas da internet e das telecomunicações, pela quebradeira no mundo emergente (Coréia do Sul, Rússia e Brasil), pela quebra de fundos hedge, pelos atentados terroristas e pelo roubo nos balanços das grandes companhias americanas. O que deixou de pé a economia dos Estados Unidos e do mundo foi a construção imobiliária.

Até que deu a crise atual. Os juros subiram, o valor das casas caiu, os mutuários menos capacitados entraram na inadimplência.

Muitíssimos anos atrás seria um problema limitado aos bancos que fizeram os empréstimos imobiliários. Bastaria executar os mutuários, retomar as casas, vendê-las, provavelmente por preço menor do que o valor do empréstimo, e assim fazer e matar o prejuízo.

No mercado financeiro sofisticado de hoje, a coisa ficou mais complicada. Os bancos lá da origem, do primeiro empréstimo, venderam a outros investidores títulos lastreados nos créditos que tinham a receber. Os participantes dessa segunda fase fizeram o mesmo, reempacotaram os títulos, passaram à frente e assim foi seguindo.

Não é simples especulação. Trata-se de um movimento do mercado que amplia as oportunidades de doar ou tomar crédito, o que, afinal, movimenta a economia.

Mas tem o outro lado: aumenta o risco global e, quando o empréstimo lá na origem não é pago, cai o castelo de cartas.

Ora, qual o tamanho do problema? Qual o volume de crédito podre no mercado? Quantos bancos e instituições estão envolvidos?

Não se sabe – e a dúvida é o pior fator a perturbar o mercado financeiro. Na medida em que pipocam os bancos informando que têm problemas em alguns de seus fundos – mesmo que sejam prejuízos pequenos e localizados (aqueles fundos do BNP Paribas tinham menos de US$ 3 bilhões, o que é pouco para o mercado internacional) -, as pessoas se perguntam: quem é o próximo?

Na dúvida, é melhor não emprestar nada para ninguém e só investir nos seguríssimos títulos dos governos dos Estados Unidos, Japão e países da Europa.

Assim, faltou dinheiro para alimentar o sistema mundial. Foi um sinal de agravamento a ação dos bancos centrais do Primeiro Mundo de emprestar dinheiro a taxas de juros básicas (menores do que as praticadas na praça privada) para os bancos operarem nas últimas quinta e sexta-feira. Pela primeira vez, desde o início das turbulências, faltou dinheiro no mercado, mesmo para as operações desvinculadas da origem da crise.

Tudo considerado, o que as autoridades reguladoras, especialmente os bancos centrais, e os bancos devem fazer?

Três providências são as mais citadas:

Esclarecer urgentemente o tamanho do problema. Bancos precisam informar – ou serem forçados a isso – sobre qual o tamanho de sua exposição aos créditos podres. Isso será informação preciosa para os investidores separarem o joio do trigo e voltarem a trabalhar regularmente com o trigo. E os bancos centrais saberão exatamente qual o joio a liquidar.

Bancos centrais precisam continuar fazendo o que fizeram quinta e sexta-feira: fornecer liquidez ao sistema, emprestar dinheiro às taxas de juros por eles fixadas e assim impedir que o lado sadio sucumba a uma falta generalizada de crédito e impedir também que os juros disparem.

Os bancos centrais devem reduzir suas taxas de juros.

O maestro Alan Greenspan tomou providências nessa direção por ocasião das crises do início dos anos 2000: muito dinheiro na praça a juros bem baixinhos (chegaram a 1% nos Estados Unidos).

A diferença é que, naquela época, a inflação estava no chão e a economia americana crescia quase nada, muito abaixo do potencial. Hoje, a economia mundial está num ciclo de forte alta desde 2003, com pressões inflacionárias. Nos Estados Unidos, há uma desaceleração, mas suave, e a inflação, apesar dos juros elevados, resiste no topo da faixa de tolerância, que é de 2% ao ano.

Por isso, os bancos centrais da Europa e do Japão têm dito que não estão confortáveis com a atual combinação de aquecimento econômico e pressão inflacionária. Preparavam o terreno para elevar os juros.

Dá num dilema. A crise do crédito recomenda juros mais baixos e muito dinheiro na praça. A preocupação com a inflação sugere o contrário.

Se a crise for menor do que se imagina, tudo bem. Dá para lidar com ela só com empréstimos de emergência. Se a crise for maior do que se imagina, ameaçando uma falência múltipla dos órgãos financeiros, os bancos centrais precisarão então escolher entre dois perigos: o de soltar a inflação ou deixar que ocorra uma deflação e recessão por falta de crédito e juros altos.

Greenspan já disse: deflação é pior.

(O Estado de S. Paulo – 13/8/2007)

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