Achei pungente algumas reações estrangeiras à observação de cunho racista do presidente Lula sobre a causa da crise. Quando se diz que Lula não queria ser racista, mas apenas lembrar que a responsabilidade da convulsão cabia mesmo a uma maioria branca, loura e de olhos azuis, os louros de olhos azuis, que assim assimilaram a observação, revelam como o humano é mesmo arbitrário, contextual e dependente de muita coisa, como diz a nossa vã sabedoria. Mas os panos quentes são sempre colocados em função de quem falou.

Quem foi que disse? Se um professor de sociologia diz numa aula que “os crioulos e os mulatos pernósticos são os causadores do atraso do Brasil”, ele toma um processo e pode ser interditado social e politicamente. Expresso pelas pessoas comuns, o racismo é um crime. Mas se uma alta autoridade do mais alto escalão salienta o aspecto físico como sendo o elemento responsável por nada mais nada menos que a crise que envolve o mundo nada ocorre. Pelo contrário, alguns aceitam a pecha (ou trolha) e, com gosto penitencial, assumem o ônus da produção de uma boa desculpa, dizendo que o presidente-operário não tinha a intenção de ser racista e que, neste caso específico, o racismo (ou que passa por ele) seria justificado.

Não faço nenhum cavalo de batalha. Afinal, como afirmou o presidente dos Estados Unidos, Lula é o homem. Ele é o líder mais popular do mundo. Ademais, Lula saiu na foto não só ao lado da rainha da Inglaterra, realizando o sonho de toda a nossa elite política que continua se pensando e repensando como – vejam vocês – nobre, mas do lado esquerdo da soberana, posição apropriada para um Lula que, naquele momento, esquecia sua acusação de direita aos “brancos de olhos azuis” e, orgulhosamente sentado à sinistra ao lado de uma mulher de sangue azul, mudava de posição.

Sei que a ocasião faz o ladrão. Mas sei também que os ladrões fazem ocasiões. Como conciliar princípios com circunstâncias? Como calibrar a visão de longe que revela grandes monumentos e formidáveis iniquidades, como a escravidão e o racismo, com a visão de perto que nos torna mais (ou menos) humanos e nos dissolve num oceano de pequenos gestos sem sentido? A saída pelo humor é a mais tranquila. Na sua ambiguidade, o riso permite abrir (e fechar) com todos os lados.

Voltemos ao quem disse. A declaração de um presidente faz desabar a bolsa de valores. Uma conversa entre pai e filho desmancha um casório. Um ditador com total apoio do seu povo pode liquidar uma etnia, acusando-a de ser impura ou iníqua, como ocorreu com os ciganos e os judeus na velha e civilizadíssima Alemanha. Na América Ibérica, bispos e padres liquidaram milhões de índios em nome da catequese e do cristianismo. Hoje, eles correm o risco de serem calados por teimarem em permanecer na “Idade da Pedra” e terem muita terra.

Por que os negros, que, muitas vezes, eram maioria, revoltaram-se tão pouco? Perguntou-me, um dia, um intrigado aluno americano, branco como um cigarro, louro como a Marilyn Monroe e com olhos mais azuis do que um céu de primavera. Porque, respondi sem hesitar, tratava-se de uma indiscutível visão de mundo. Como toda visão de mundo, seu trabalho era o de legitimar-se a si mesma, como dizia o velho Durkheim. Os negros eram inferiores porque eram escravos e eram escravos porque eram inferiores. Isso não era dito somente por pessoas simples e do povo, mas todo mundo: padres, juristas, comerciantes ricos, sábios da mais alta estirpe e aristocratas de sangue azul. Enfim, toda a torcida do Flamengo era favorável ao sistema que estava instituído e produzia efeitos e efetividades. Tinha um lado intelectual e um lado emocional e prático. Era uma instituição abrangente, totalizada que permeava todas as dimensões da vida e da morte, como diria o grande Mauss. Nesse sistema, a inferioridade do negro era indiscutível. Aliás, discutir sua possível igualdade era algo novo e revolucionário. Quem poderia defendê-los em tal sistema e contexto?

Agora, pergunto eu, entre o curioso e o assustado: quem vai defender os branquelas louros de olhos azuis contra o cara, contra o maior líder mundial? Aí deve entrar em cena não o presidente dos Estados Unidos, mas Gordon Brown, primeiro-ministro britânico que cumprindo o mais perfeito papel de leva e traz, tão nosso conhecido, candongou Lula a Obama tornando pública toda uma filosofia de governo: “Quando eu era sindicalista, eu culpava o governo; quando era da oposição, culpava o governo; quando virei governo, culpei a Europa e os EUA.” Ou seja, Lula é mesmo o cara. O sujeito que pode falar tudo, fazer tudo, dizer que não sabia e, melhor ainda, culpar os outros. Trata-se do curinga, essa carta básica de um mundo em plena liquidez (como diz Bauman) ou em plena liquidação? Vocês, que são safos, decidam.

O Globo – 08/04/2009

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