Como foi divulgado na imprensa, o processo de cálculo do PIB passou por uma revisão e os dados mostram que, ao contrário do que se pensava, a economia brasileira é ainda muito fechada em relação ao resto do mundo. Ironicamente, alguém pode dizer que “os chineses não eram assim tão perigosos como diziam suas maiores vítimas potenciais: os empresários brasileiros”.

Apesar disto, em um recente debate sobre possíveis formas de se obter uma taxa de câmbio mais desvalorizada, um importante ministro da área econômica declarou:

“A economia brasileira já está bastante aberta. Não há nada que impeça uma abertura maior. Basta que os importadores resolvam importar mais, inclusive porque as importações estão crescendo de forma expressiva. Isto é abertura da economia. E com esse câmbio significa que nós estamos barateando os produtos importados”, disse.

De fato, é verdade que a economia “está aberta”, mas “bastante aberta” é um exagero. Antes da revisão das contas o Brasil não era famoso entre os pesquisadores por ser uma economia “muito aberta”. Tome-se por exemplo o índice de globalização medido por Lockwood & Reodano (2005). Embora, em 2003, o Brasil fosse o 49o na colocação geral, em termos do componente econômico do índice, o país ostentava uma modesta 85a colocação. Note que a abertura econômica do país é considerada em seu cálculo e, assim, a revisão da metodologia do cálculo do PIB, se rigorosamente aplicada e considerada numa revisão deste índice, certamente levará o país para posições mais baixas no ranking (*).

O ministro está certo em dizer que não criará favorecimentos a este ou aquele importador (”Basta que os importadores resolvam importar mais”). Poderia dizer o mesmo sobre as exportações e teria um discurso mais coerente. Se transformasse ambos os discursos em realidade, seria maravilhoso.

É saudável resistir às pressões políticas por maiores importações, mas é bom lembrar que isto não implica em se adotar um viés anti-importador no discurso ou na prática da política econômica. Afinal, importações não aumentam apenas com favorecimentos.

Uma redução indiscriminada de tarifas seria uma forma de incentivar as importações e aumentar a internacionalização de nossa economia sem gerar favorecimentos a este ou aquele grupo de empresários. Há também o próprio crescimento econômico que, sabidamente, estimula as importações. Finalmente, pode-se combinar estas medidas com aumentos reais de renda para os consumidores, permitindo-lhe acesso a bens que nem sempre teria à sua disposição em uma economia fechada.

Estas são opções que nem sempre são lembradas pelos políticos e burocratas do governo, muitas vezes mais preocupados em atender grupos de interesses específicos através da oferta de proteção contra concorrentes estrangeiros, ou de subsídios para exportadores, ambos às custas do bolso do contribuinte.

Em resumo: abrir uma economia não passa necessariamente pelo afago visível de alguns setores pela mão forte do governo. Políticas pró-mercado podem surtir o mesmo efeito a um custo social menor. É bom lembrar que, neste caso, os consumidores/contribuintes /eleitores agradecem (e são mais numerosos que pequenos grupos de interesse).

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