Quem tem medo do doutor Guido Mantega?

No mercado financeiro e redondezas há quem compare o ministro Guido Mantega ao leão da Metro-Goldwyn-Mayer: ruge bastante, mas, vai ver, é apenas filme…

A taxa cambial tornou-se um avantesma bruxuleante que escapa sorrateiro dos botes do ministro, que sorri amarelo para não parecer assustado enquanto insiste: “Não vamos permitir grandes sobressaltos no câmbio”. Isso, depois da última tentativa de “atenuar” a valorização do real, que resultou no dia seguinte numa queda do dólar para R$ 1,58. Há ainda quem ironize, dizendo que o melhor, para evitar novas desvalorizações do dólar, é Mantega parar de tomar medidas, caso contrário ele é capaz de jogar o dólar para R$ 1,2o em pouco tempo. Mas ele não desiste: “Nós vamos continuar a tomar medidas”, disse em São Paulo num seminário na sexta-feira.

E há outro tema-assombração que o ministro tem administrado com grande competência: “Vamos continuar travando luta contra a enxurrada de capital” – luta que também tem sido perdida semana a semana.

Gabriel García Márquez dizia que o seu personagem coronel Aureliano Buendía entrou “em muitas revoluções, e perdeu todas”. Não diremos do nosso ministro que ele lembra também esse personagem, mesmo porque não entrou em revolução nenhuma. Mas o retrospecto das suas iniciativas sugere resultado análogo. Lembremos, todavia, a bem da verdade, que Guido Mantega não está tendo a vida fácil no cargo, que, dadas as circunstâncias do momento, parece muito a famosa camisa de onze varas – expressão cujo significado é claro para todo mundo, mas cuja origem gostaríamos que alguém nos explicasse.

Uma das varas dessa camisa é justamente a questão do câmbio. Como o dólar se desvaloriza diante do real, os produtos brasileiros, cotados em dólares no mercado mundial, tornam-se cada vez mais caros para o consumidor externo e os produtos importados pelo Brasil tornam-se cada vez mais baratos para o consumidor brasileiro.

Quer dizer, o equilíbrio da balança comercial brasileira com o exterior está cada vez mais ameaçado, como aliás apontou um estudo recente da Organização Mundial do Comércio (OMC). E o nosso déficit em transações correntes, que já é elevado, eleva-se mais. E ainda há o inconveniente de que, dentro do Brasil, os produtos importados vão-se tornando mais baratos do que os produtos nacionais, prejudicando a indústria nacional, mas de certo modo beneficiando o consumidor brasileiro e até ajudando a conter o impulso da inflação, pois muita mercadoria brasileira tem participação de importados.

Mas, já que em teoria o Brasil adotou o câmbio flutuante, o remédio para o problema seria deixar o dólar ir mergulhando à vontade até encontrar um ponto de equilíbrio (ou resistência) que seria dado pelas forças do mercado. Porém, no intervalo, a indústria brasileira poderia ser arrasada, o emprego industrial cairia bastante e o consumidor brasileiro estaria, na prática, contribuindo para a criação de empregos fora do Brasil.

Como se percebe, a charada não tem solução de prateleira. É preciso, como se dizia antigamente, dar tratos à bola – que é o que o ministro anda fazendo, presume-se, sem muito sucesso por enquanto.

Mas está andando na corda bamba, com a inflação nos calcanhares – ela já bateu nos 6,3%, acumulada em 12 meses, pertinho do teto da meta, que é 6,5%. E o acumulado de 12 meses vem subindo desde agosto passado.

A outra fonte de aflição para o ministro é o que ele próprio chamou de “enxurrada de capital”. A economia brasileira está bombando, o Brasil paga mais juros do que qualquer outro país e a economia externa está em passo de tartaruga. Nada mais natural, portanto, que haja enxurrada de capital para dentro do Brasil, pois capitalistas gostam é de onde há festa. Só que os dólares que entram têm de ser convertidos em reais, que aumentam a liquidez interna (a quantidade de dinheiro no mercado), o que alimenta a fervura consumista e, indiretamente, o risco de inflação.

Então, o ministro aumenta o IOF tentando conter a enxurrada e, ao mesmo tempo, encarecer os empréstimos e as vendas a prestação, para inibir o consumo. Só que isso também não está dando certo, porque, mesmo com IOF maior, ainda vale a pena operar no Brasil e tomar crédito. O IOF teria de ser gigantesco para ter efeito mais imediato. Só que depois se tornaria eterno, pois quando alguma coisa aumenta a arrecadação do governo, este imediatamente inventa novos usos para o excedente e nunca mais pode dispensá-lo. Todos conhecemos esse filme.

Digamos, portanto, que o avião do doutor Mantega não está cruzando céu de brigadeiro. Está com vento de proa e com cumulus nimbus (CBs) num horizonte mais ou menos próximo. Se ele não encontrar maneira de assegurar ao mercado que a inflação, o déficit em contas correntes e a balança comercial não escaparão da curva, e se não descobrir medidas que tenham credibilidade no mercado, no sentido de retirar, mesmo a médio prazo, os indicadores do mau caminho em que entraram, provavelmente terá de ser substituído, pois é o que um governo faz para exorcizar pessimismo e descrença.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 11/04/2011

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