Quem toma conta da inflação?

A estabilidade de preços, o pleno emprego e o equilíbrio das contas externas são conhecidos objetivos macroeconômicos. Para perseguir tais objetivos, os governos recorrem a diversos instrumentos de política econômica. Os gastos públicos e os impostos controlados pelo Ministério da Fazenda, as taxas de juros estabelecidas pelo Banco Central, a política cambial, os níveis de salário mínimo e encargos trabalhistas figuram entre os principais instrumentos.

Um dos maiores desafios de qualquer governo é justamente a coordenação eficaz de seus instrumentos para a consecução dos objetivos desejados. Precisamos de tantos instrumentos quantos sejam os objetivos a alcançar, conforme prescreve Jan Tinbergen, o macroeconometrista holandês que dividiu o primeiro Prêmio Nobel de Economia com o norueguês Ragnar Frisch, em 1969. Esse é o dilema em que se encontram os bancos centrais em todo o mundo. As pressões de custos de alimentos, energia e matérias-primas começam a ser repassadas ao longo da cadeia produtiva. Mais inflação e menos crescimento tornaramse fenômeno global. E se o governo tem apenas um instrumento — a política de juros — o Banco Central sozinho não conseguirá conter a inflação e manter o ritmo de geração de empregos.

Nos Estados Unidos, a taxa de desemprego já estava elevada, pois ainda fumegavam os estragos da Grande Recessão de 2008-2009. E, mesmo com a economia ainda enfraquecida, as expectativas de inflação começam a subir. Mas o banco central já fez sua difícil escolha. Insiste na manutenção de juros muito baixos por um período longo demais. Ataca o desemprego e ignora a ameaça inflacionária. Já o Banco Central Europeu deixou clara sua preferência pelo controle da inflação. De olho no forte ritmo da economia alemã, que exibe sua menor taxa de desemprego em duas décadas, decidiu ignorar o sofrimento da Europa mediterrânea e iniciou o processo de elevação das taxas de juros.

E o Banco Central do Brasil? Corre o risco de paralisia pela indecisão diante de objetivos conflitantes. Dá sinais de que não vai elevar os juros o suficiente para derrubar a inflação pelo receio de desacelerar em excesso a criação de empregos. Espera a prometida ajuda do Ministério da Fazenda. A presidente Dilma Rousseff anunciou melhor coordenação dos instrumentos. Afinal, quem é o responsável pelas metas de inflação?

Fonte: O Globo, 18/04/2011

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