Questão de fé

O atual governo tem sido prolífico em crenças sobre a desaceleração da economia e, consequentemente, da inflação. Talvez pela força da gravidade, o governo tem muita fé num ritmo de atividade mais fraco e até o banco central adotou o fervor religioso em relação ao IPCA. Está na mão de Deus praticamente acreditar que a inflação convirja para a meta já em 2012.

Há nessa discussão toda uma inequívoca questão de timing. Até agora o governo foi tímido nas medidas para desacelerar a economia. Ou seja, não haveria por que acreditar que deveríamos ver uma economia perdendo fôlego já neste início de ano. O PIB do primeiro trimestre deve fechar com alta de 1,2% em relação ao quarto trimestre, maior ainda do que foi no fim do ano passado.

O mercado de trabalho não dá sinais de desaceleração. É verdade que o rendimento médio real tem desacelerado na margem, mas isso é fruto da inflação crescente, situação semelhante ao que ocorreu no início de 2008. A mesma história se repete agora, mas o ponto relevante é que os salários nominais continuam a subir sem trégua.

Havia a fé também que as medidas macroprudenciais de dezembro surtiriam alguma desaceleração na economia, especialmente em automóveis, algo que não aconteceu.

Mas isso não quer dizer que não vai desacelerar. O ponto é que, como o diagnóstico do governo é errado ao colocar a culpa da inflação quase exclusivamente em commodities e negligenciar os fatores de demanda, também existe erro nos instrumentos utilizados para desacelerar a economia.

Disso vêm políticas monetária e fiscal muito acanhadas que devem levar a economia a crescer 4,5% este ano. O que não parece ser mais fé, e sim realidade, é a inflação cronicamente a 6% para a qual estamos caminhando.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 30/03/2011

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3 comments

  1. João

    Para mim, o crescimento do PIB é artificial. Digo isso porque vejo o salário médio do trabalhador estagnado há quase 10 anos, e as empresas que mais crescem são as que ganham gordos financiamentos do BNDES. Ou seja, o Brasil cresce às custas do endividamento público.

  2. Beto Ameida

    João, para ter certeza de que o PIB é real, basta vc frequentar os supermercados da vida. Vc verá que o brasileiro comum está comendo mais, a despeito do que vc disse acerca do “salário médio”. Vc também pode frequentar aeroportos. Lá vc também vai constatar que o ganho do trabalhador já é de tal modo que muitos passaram a consumir passagens aéreas, coisa que até 8 anos atrás era impensável. Quanto a financiamentos, o BNDES é banco de desenvolvimento, ou seja, de investimentos. Confia João.

  3. João

    O salário médio está estagnado, meu chapa. Eu digo isso porque é o problema do “brasileiro comum”. Este come mais porque, felizmente, não temos hiperinflação, que era terrível para os mais pobres. Passou a ser possível fazer parcelamentos, como de passagens aéreas. E sobre o BNDES: este ajuda muito os grandes empresários. Ponto.
    Crescimento em cima de dívida pública é uma temeridade. E não é só o Brasil que vai pagar o preço dessa estupidez, não. O mundo caminha nessa direção perigosa.