Escrevo constrangido, pois não tenho nenhum prazer em comentar mais uma das tais “metáforas” de mau gosto do presidente Lula. Gafes com implicações morais e políticas tão profundas e desagradáveis que, nem mesmo os políticos mais autocondescendentes, cabotinos e engordados pela mamadeira de um Estado que os trata como realeza, devem repetir.

Que eles jurem que não sabiam, que não conheciam o sócio canalha ou a origem do dinheiro, eu amargamente engulo, mas o caso em pauta não pode passar em branco e visto com olhos azuis.

Se a ditadura militar reduziu os problemas nacionais a corruptos e comunistas, eu não posso calar diante de um presidente da República — um político que lutou contra as mais vis simplificações morais e se elegeu com a bandeira da transformação libertária e do antirracismo — que afirma: “a crise foi feita por gente branca e de olhos azuis”. Seria a frase racista uma tentativa canhestra de dizer que nós — povo e governo Lula — não temos nada com essas perdas cuja responsabilidade seria de exclusiva fabricação externa (e, portanto, “branca”)? Crise desses brancos insensíveis e irresponsáveis que, mais uma vez, vitimam tanto Lula e seus asseclas quanto o povo brasileiro que, é claro (vejam só o racismo enviesado), não seria “gente” (da “raça”) branca de olhos azuis? Como é que o Lula, que sofreu quase todos os preconceitos, pode dizer uma barbaridade racista de tamanho calibre? É coagido, pois, pelo embaraço, que sou obrigado a reconhecer como o “racismo à brasileira”, denunciado, aliás, por mim em 1981, no livrinho “Relativizando: uma introdução à antropologia social”, sirva para explicar tanto a crise econômica que vivemos quanto antigamente foi usado para justificar o atraso do Brasil. Um país que, até o Plano Real e a crise, era subdesenvolvido, andando — como gostava de dizer o gênio da raça, o professor e ideólogo Darcy Ribeiro — aos “trancos e barrancos”.

Que os políticos mais reacionários tenham sido racistas, ao lado dos seus irmãos escravistas, dos matadores e catequizadores de índios, eu entendo. Mas ouvir essa frase de um presidente com os compromissos políticos e morais do Lula, foi mais uma trombada.

O problema do racismo não é que ele opere por exageros, substituindo o artigo indefinido pelo definido, é a sua produção de segmentações irreconciliáveis.

Vejam bem: quando eu falo em gente branca de olhos azuis, eu sou absolutamente inclusivo. Seria melhor dizer, uns tantos brancos de olhos azuis? Certamente.

Pois quando o “o” substitui o “um” a classificação, que é sempre aglutinadora e exagerada, mas que permite discriminação — pois há brancos e brancos de olhos azuis —, fica fechada. Torna-se ideal, modelar, “platônica”, universal e como ela é construída numa base biológica, tornase irrecorrível. Só quem tem certezas absolutas fala que o negro é boçal; que o índio tem muita terra; que toda loura é burra, e que todo burguês e judeu merecem paredão e câmara de gás.

Toda classificação simplifica. Mas o código racista faz mais que isso. Ele reduz um evento complicado a uma causa única, e situa no campo das aparências físicas fatos que têm muitas causas e não podem ser satisfatoriamente explicáveis exclusivamente por nenhuma delas. É óbvio que a crise explodiu no centro, mas é claríssimo também que, numa economia globalizada, todos dela tiraram um bom partido, pois as parcerias comerciais relacionavam centro e periferias diminuindo, pela primeira vez na história do capitalismo, suas teoricamente irremovíveis distâncias.

Não pode passar em branco o fato de que a frase do presidente tem uma antiga linhagem. O racismo é uma máquina mortal de simplificar coisas, animais, pessoas e situações.

Quando se diz que o Brasil é um pais atrasado porque foi feito por negros, índios e criminosos portugueses, faz-se uma redução absurda da complexidade de uma coletividade que é, ao mesmo tempo, língua, cultura, território, religião, comportamentos, paisagens, comidas, gestos, mercados e tudo o mais. Cria-se uma segmentação irredutível, incapaz de ser transformada pela educação, pela política e por sua própria vontade como sociedade, pois como mudar esse código biológico que a aprisiona num sistema de “raças” imutáveis? Ao falar em brancos de olhos azuis, Lula fez como os velhos escravistas: usou a cláusula pétrea do tempo biológico que tudo congela na lógica do imutável, abandonando a dinâmica das diferenciações empáticas e produtivas que, sendo culturais, são transitórias, arbitrárias, históricas, negociáveis e passíveis de modificação. O racismo desumaniza porque ele enxerga negros, índios e agora brancos de olhos azuis onde, de fato, existem instituições, regras, práticas e motivos sociais inventados por homens entre homens.

P. S.: Não há racismo politicamente correto.

Deixe um comentário