Rasgando o Brasil (Final)

Uma perspectiva superficial diz que nada é levado a sério no Brasil. Mas o fato é que temos axiomas sociais imbatíveis. Por exemplo: amigo de amigo é amigo. Inimigo de amigo é inimigo! Curioso como tais expectativas continuem operando, mesmo quando sabemos que esses campos têm fronteiras tênues. Sobretudo quando consideramos que, entre nós, o trabalho era executado por não pessoas: os escravos – cujos fantasmas ainda puxam os nossos pés. Esses eram mortos-vivos e os elos entre eles e seus senhores eram demarcados por um sistema de etiquetas que permanece invisível até que algum gesto do inferior detone algum nervo do sistema, liberando sua esmagadora intolerância. Quando Florestan Fernandes diz que, no Brasil, temos “o preconceito de não ter preconceito”, ele fala de um paradoxo profundo. Somos como o cego que usa óculos escuros no cinema.

Vivemos num sistema onde pessoas nos conduzem a pessoas do mesmo modo que os textos se tecem entre si. Desse modo, eu reencontrei a Aracy justamente num momento em que Pérsio curava as feridas da tortura e, por meio do seu texto, eu me deixava ferir por ser parte deste Brasil que torturou.

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Escrevo esta segunda parte no dia 4 de maio. É dia do nascimento do meu primeiro filho (o filho que me tornou pai), Rodrigo, vindo ao mundo em 1963 e falecido, subitamente, em 2006. Não morreu de tortura infame, como seria o caso do Pérsio. Morreu porque a Varig morreu e o governo Lula queria liquidar a Varig. Ela morreu e meu filho, como um Romeu de uma Julieta errada, morreu com ela no seu último dia de férias; 48 horas antes do meu aniversário de 70 anos. Foi um belo presente, mas conforme tenho aprendido, há coisas piores. No fundo, a gente se ajeita melhor com a morte do que com as pestes incuráveis da alma. Essas que suprimem a fronteira entre viver e morrer, o lembrar e o esquecer. Desse modo, o pai do Pérsio teve a ventura de ser velado pelos seus filhos. Eu achava que isso ia acontecer comigo, mas não vai. O senhor Arida não entrou, que bom para ele, nesse clube de desgraçados ao qual pertenço. Pois conforme ele mesmo dizia: “Enterrar um filho é o que de pior pode acontecer a um pai”. Não poderia estar mais correto. Graças a esse amor, ele articulou, mas não realizou, contratar um assassino para matar um militar. Iria passar de Quixote a Monte Cristo e vingar-se pela eventual morte do filho. Assim que li esse pedaço, virei amigo de infância do pai do Pérsio porque, como ele, eu também faço tudo pela minha família.

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Curioso, mas significativo, que o nome de guerra de Pérsio tenha sido Renato: o que nasce mais de um vez como ocorreu na sua bem-sucedida vida de homem público que, com a subversão do Plano Real que ele ajudou a construir, foi capaz de transformar o Brasil. Eis uma parábola vital. O bem muitas vezes resulta no mal, como o mal resulta no bem. As consequências das nossas ações são imprevisíveis. Poucos sociólogos falaram disso. Mas, como compensação, toda a literatura (senão todas as grandes parábolas religiosas) se funda exatamente nesse terreno do imprevisível e do inesperado. O terreno do milagre ou do ódio dissimulado. No mundo religioso e no romance, eles se compensam. O milagre pelo amor anula o ódio recalcado. Na vida real, a coisa é outra. A intolerância triunfa e só o esquecimento anula o mal que tenta alcançar o nosso coração.

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Finalmente, uma pequena reflexão sobre a fraternidade. O texto de Pérsio Arida (que, penso, encontrei pessoalmente apenas uma vez, pois moro em Niterói…) provocou um choque com minha experiência de vida. Vivemos num mesmo país e numa mesma época. Eu sou um tanto mais velho, mas somos tributários das mesmas ideias utópicas de um socialismo mal digerido, se é que foi mesmo compreendido entre nós. Um socialismo que reiterava o papel fundamental do estado como motor da sociedade, coisa que os nossos avós portugueses souberam realizar muito bem. Mas é no pertencer enviesado que está o significado de ser contemporâneo. Como tal, compartilhamos uma ligação visceral a um lugar cujo destino nos preocupa e que, certos ou errados, pensamos estar um pouco (ou muito) nas nossas mãos. Eu estava saindo dos determinismos e entrando nos estruturalismos, que eram a miséria da razão, quando Pérsio Arida foi fisgado pelo grande anzol do Grande Irmão. Ele entrou num grupo com todas as respostas, eu – morador em Niterói – acabei descobrindo a antropologia que até hoje faz as mesmas perguntas. Um jovem professor chamado Roberto Cardoso de Oliveira mudou minha vida e imprimiu em mim aquilo que outros negavam naquele (e neste) Brasil que nos rodeia: o interesse pela diferença, a vontade de ser um pesquisador das culturas; um homem capaz de abraçar o diferente. Tive a coragem de me isolar com os chamados “índios” para, apesar de toda diferença, tentar compreendê-los.

A questão não está em saber quem fez mais certo, mas em aprofundar esses cenários montados pelo Brasil. Um Brasil (e um mundo) que nós não inventamos, que prosseguirá sem nós e que vai nos esquecer. O tempo é curto, mesmo quando o labirinto é pequeno e o sofrimento, extraordinariamente grande. Mais vale tentar aprender a pensar com o coração que tem a mesma forma do Brasil e tudo emenda e remenda.

Fonte: O Globo, 11/05/2011

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