O rating e a sociedade

O time econômico adotou como meta a reconquista do grau de investimento. Para alguns, porém, o governo não deveria dar tanta importância a agências de rating; afinal, elas falharam em antever a crise global da década passada.

As agências não julgam as escolhas de política econômica para definir a nota de crédito dos países; elas avaliam os seus resultados.

As agências elevaram a nota do Brasil em 2011, quando os equívocos da era Mantega já eram amplamente apontados. Só em 2015 o Brasil perdeu o grau de investimento, quando o desastre de Dilma já era favas contadas. Enquanto houve crescimento, as agências deram o benefício da dúvida, apesar de discordarem das políticas conduzidas.

Ainda que defasadas, as agências não deixam de influenciar investidores, sancionando e realimentando seu sentimento. Não convém, portanto, ignorá-las.

As agências reconhecem os avanços na gestão Temer e concordam com os diagnósticos e estratégia da equipe econômica. No entanto, enquanto identificam riscos de execução em função do quadro político, aguardam a prova do sucesso, que é a volta cíclica do crescimento.

Reconquistar o grau de investimento são outros quinhentos. É necessário afastar o risco de um crescimento de fôlego curto, voo de galinha. A agenda de ajuste precisa ir além do atual mandato. Por isso mesmo, veem com preocupação as eleições de 2018. É crucial que o próximo presidente dê continuidade ao ajuste fiscal e avance na agenda de eliminação de barreiras ao crescimento.

Será que a sociedade irá escolher um presidente comprometido com disciplina fiscal e uma agenda reformista, em contraposição a populistas? Aqui, um atenuante e dois alertas.

O atenuante é que o espaço para irresponsabilidade fiscal se reduziu. Dilma não seria Dilma nos dias de hoje. O espaço para o populismo de abrir cofres diminuiu com a regra do teto, e com instituições de controle finalmente mais atentas. Além disso, o quadro fiscal dramático, expondo a falência dos serviços públicos, talvez esteja levando a uma mudança de crenças, como apontado por Marcus Melo e Carlos Pereira. Exemplo disso foram os discursos de austeridade na posse dos novos prefeitos.

O primeiro alerta é que é crucial que a sociedade enxergue o benefício do ajuste fiscal, que é a volta cíclica do crescimento. A queda da inflação e a flexibilização responsável da política monetária pelo BC foram passos essenciais. Mas há ainda a reforma da Previdência como condição para um quadro benigno em 2018.

O segundo alerta é que é importante que se removam privilégios de grupos de interesse, como os militares, a elite do funcionalismo com seus penduricalhos salariais e os grupos que recebem benefícios tributários indevidos.

Para que a sociedade valorize a disciplina fiscal e repudie populistas, ela precisa se beneficiar do ajuste por meio de maior crescimento econômico e também equidade. O custo do ajuste deve ser de todos.

No mundo desenvolvido, a sociedade está decepcionada com o capitalismo, pois vê grupos privilegiados que capturam o governo, como apontado por Luigi Zingales. É o capitalismo de compadrio. Como reação, a sociedade passou a apoiar políticos populistas.

O Brasil, dentre outros emergentes, também padece do estado patrimonialista, mas está em posição diferente. Já passamos por governo populista. O que parece haver aqui é a decepção com o sonho do estado grande, que prometeu muito e só entregou o desastre.

Se, por um lado, isso pode limitar a farra fiscal no futuro, por outro, não garante a continuidade da agenda de ajuste da economia.

Temer e os próximos governantes precisam reconquistar a confiança das agências de rating, mas também da sociedade, para reduzir o risco de populismo e, assim, o País avançar nas reformas estruturais pró-crescimento.

Compreender os anseios de investidores e os da sociedade não são objetivos excludentes, mas sim complementares.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 02/01/2017.

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