Raízes históricas da criminalidade

O vertiginoso aumento da criminalidade está deixando todo mundo perplexo e mudando nossas ideias a respeito do país. Nunca tantos brasileiros falaram em emigrar, e a violência é uma das causas principais desse desejo de ir embora em definitivo. Para compreender isso, a perspectiva histórica me parece imprescindível.

Até por volta de 1950, a população urbana era pequena e mesmo nas cidades a estratificação era rígida; tanto no lar como nas funções que ocupava e nas instituições que dirigia, a classe média sabia manter uma certa ordem. Poucas pessoas possuíam armas. Nessa época, o Brasil abraçou a crença no progresso com uma ingenuidade difícil de encontrar em outros países. As cidades cresciam aceleradamente, os problemas se multiplicavam, mas nós queríamos acreditar que o crescimento econômico por si só ajustaria as arestas. Nossa proverbial “cordialidade” absorveria todas as pressões. Nesse quadro, o diagnóstico era o de que a violência era e continuaria baixa, e talvez até decrescesse à medida que o país se modernizava. Éramos um país abençoado por Deus e bonito por natureza.

Durante os 21 anos do governo militar, a criminalidade avolumou-se, mas não se tornou uma prioridade no debate público. Não entrava no radar dos dois lados em que o país se dividira. Os militares preocupavam-se em combater os focos de violência política (a luta armada). Para Maluf, bastava botar mais polícia na rua. A oposição, cujo grande porta-voz era Montoro, concentrava-se na crítica às políticas econômicas e sociais do governo. Sem o saber, reeditávamos o debate clássico de Hobbes contra Rousseau. Enquanto isso, o narcotráfico entrava sem encontrar resistência e se instalava confortavelmente nas duas principais cidades, ganhando o controle das favelas e criando uma extensa rede para a distribuição da droga.

E assim chegamos à situação atual, caracterizada por uma aguda desproporção de recursos. Polícias mal pagas, mal armadas e porosas à corrupção enfrentam os exércitos privados do narcotráfico. Armamento pesado e a droga entram facilmente por nossas fronteiras. E vivemos na ilusão de combater a oferta sem combater a procura. Não queremos entender que o consumo sem restrições perpetua o mercado que interessa ao crime organizado.

Fonte: “IstoÉ”, 02/11/2017

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