O mais importante na substituição do ex-ministro Antonio Palocci foi a tentativa de retomada do controle da situação pela presidente Dilma. Mesmo tendo se aconselhado com o ex-presidente Lula, o que a enfraquece aos olhos da opinião pública, não aceitou sua sugestão para que mantivesse o ex-ministro Antonio Palocci na Casa Civil e apenas comunicou-lhe que escolheria a senadora Gleisi Hoffmann para substituí-lo, deixando a sua marca com a escolha de uma mulher para o primeiro escalão de seu Ministério.

A escolha de uma mulher para o cargo mais influente do governo tem o simbolismo que a presidente Dilma considera importante para marcar sua passagem pela Presidência da República, e, no momento, esse ponto é mais importante do ponto de vista do marketing político do que saber se a indicada tem capacidade para exercer o cargo.

O PMDB já começa a espalhar que considera a senadora petista despreparada para a função, mas ela tem experiência administrativa e declarou que a presidente quer que faça um trabalho de gestão, o que indica que a negociação política terá que ser assumida em outra esfera do governo.

O ex-ministro Palocci não tinha a menor condição política de permanecer no comando da Casa Civil, e a decisão do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, de arquivar o pedido de inquérito contra ele só teve a vantagem de deixá-lo sair do governo em uma situação mais favorável do ponto de vista formal.

Do ponto de vista da atuação política, ele já perdera a parada, diante da possibilidade concreta de que a CPI do Senado fosse pedida com o apoio de senadores da base aliada e da negativa da bancada petista do Senado de lhe dar um voto de confiança.

É preciso ressaltar que a escolha da senadora do Paraná teve um requinte político: ela fora a mais veemente, na reunião com Lula, a investir contra a permanência de Palocci no Palácio do Planalto, afirmando que ele estava desgastando o governo.

Parece ter transmitido o pensamento da própria presidente Dilma, que se livrou de um dos nomes que Lula colocou próximo a seu gabinete para tutelá-la.

A senadora Gleisi Hoffmann será a única componente do chamado “núcleo duro” do governo com votos, o que lhe dará certa ascendência entre os petistas encastelados no primeiro escalão.

Mas não quer dizer que seja boa de voto: perdera anteriormente uma eleição para o Senado e outra para a prefeitura de Curitiba, tendo ocupado diversos cargos em administrações petistas, o mais importante deles como gestora da Itaipu Binacional.

Embora tenha um perfil mais técnico, o que era buscado pela presidente Dilma, a senadora teve atuação política aguerrida no Senado nestes primeiros meses de legislatura, a ponto de já ter criado uma relação desgastada com a bancada do PMDB, o que certamente lhe trará problemas agora que está na Casa Civil.

É muito provável que o governo tenha que mudar o ministro das Relações Institucionais, pois o deputado Luiz Sérgio é considerado por seus pares como incapaz de ser o protagonista dessa relação necessariamente conflituosa da base governista.

O PMDB já está reivindicando o cargo, diante do fato de que a senadora Gleisi Hoffmann representa um acréscimo de poder ao PT dentro do governo, já que Palocci tinha luz própria e representava muito mais Lula do que a máquina petista.

O crescimento petista, aliás, presumivelmente fará com que o PMDB tente assumir um papel mais ativo no governo, para contrabalançar a saída de Palocci.

O novo sócio do poder petista se apresentou no início do governo como o avalista de um projeto democrático, garantindo que nenhuma aventura petista seria apoiada por ele.

O temor de que a nova direção petista, sob a inspiração de José Dirceu, tentasse assumir o controle do governo foi amortecido com a indicação de Antonio Palocci para a Casa Civil.

Por isso mesmo, no início da crise desencadeada pela descoberta de seu rápido enriquecimento, até a oposição atacou-o de maneira suave, na esperança de que conseguisse explicar a origem do dinheiro e se livrasse das acusações que, ao que tudo indica, vieram de seu próprio lado, fogo amigo na disputa pelo poder.

Antes de nomear a senadora Gleisi Hoffmann para a Casa Civil, a presidente Dilma teve uma conversa com o presidente do PT, Rui Falcão, ligado a José Dirceu, o que fez com que os peemedebistas ficassem de orelha em pé. O mais difícil do governo Dilma — que recomeça agora, mais com sua cara — será justamente organizar essa base aliada, que, de tão grande e tão homogênea, é mais um problema do que solução.

Uma aliança política apenas defensiva, que não tem liga programática nem projeto de governo e, por isso mesmo, é sujeita a muitas variações de humor e está permanentemente em busca de “motivos” para votar com o governo — que podem se traduzir em cargos e comissões políticas que rendam votos.

Com a saída de Palocci, veremos nos próximos meses uma disputa feroz entre os dois principais protagonistas da aliança política governista, e caberá à presidente Dilma arbitrar esses conflitos.

Ela agora começa a querer assumir suas responsabilidades de chefe do Executivo e terá que mostrar capacidade de comando num ambiente conturbado.

A senadora Gleisi Hoffmann, por sua vez, não terá o período de graça que se dá aos governantes, pois ela entrou em meio a uma crise e continuará a receber os estilhaços da artilharia oposicionista, que tem uma boa oportunidade de assumir um papel mais agressivo.

Fonte: O Globo, 08/06/2011

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