O trimestre de abril a junho deste ano foi bom para a economia brasileira. A recuperação do Produto Interno Bruto (PIB) deve ter alcançado um crescimento entre 1,5% e 2%, em relação ao trimestre anterior. Se “anualizarmos” (ou seja, assumirmos a mesma taxa de crescimento para os próximos trimestres), a economia brasileira cresceria a uma taxa de 6% a 8%. Mas será que faz sentido pensar nesse ritmo de crescimento para a frente? O que justifica essa recuperação no Brasil? O que podemos esperar? Há certamente fatores transitórios importantes para esse crescimento mais forte no segundo trimestre. Em primeiro lugar, alguns fatores técnicos.

A queda forte, no fim do ano passado, normalmente comanda alguma recuperação na sequência. Em segundo lugar, a extensão da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para veículos aumentou as vendas no trimestre. Uma parte dessas vendas certamente é antecipação de gastos futuros dos consumidores.

Finalmente — e talvez o mais importante — as economias emergentes estão liderando a retomada.

A China, sob considerável impulso fiscal e monetário, está investindo mais e alavancando o crescimento — seu e o da região. O Brasil tem se beneficiado pela retomada de atividade na China, assim como por sua política de recomposição de estoques de commodities. O Brasil retomou as exportações de produtos básicos e semimanufaturados.

Esperamos uma desaceleração da taxa de crescimento nos próximos trimestres para a faixa de 1% por trimestre (anualizado para 4% ao ano, uma taxa sustentável para a frente).

A razão é global e local.

Globalmente, esperamos a continuação da recuperação, mas num ritmo mais moderado. Como temos argumentado neste espaço, o crescimento no mundo, especialmente depois de esgotados os impulsos fiscais e monetários, deverá ser menos intenso do que nos últimos anos por uma combinação de fatores: a queda da riqueza financeira no mundo, a dificuldade na volta do crédito bancário nos países maduros, a recomposição da poupança nos EUA e a incerta transformação da China numa economia de consumo. A atual retomada parece vigorosa em função do alívio advindo do fim da recessão, mas o desafio do crescimento sustentado permanece. Isso deve diminuir o impulso externo à economia brasileira.

O mesmo deve-se esperar dos impulsos locais. Os estoques estão perto do desejado, logo o crescimento da produção deverá evoluir de acordo com a demanda. E o efeito do IPI não deve mais gerar os estímulos anteriores.

Na verdade, a antecipação de consumo por causa da redução temporária do imposto pode afetar negativamente tanto as vendas no varejo quanto a produção industrial.

O desempenho das vendas no segundo semestre não é claro. A expectativa é que o efeito líquido dos impactos seja um crescimento gradual do consumo. Por um lado, devemos observar um impacto negativo nas vendas devido à continuidade da desaceleração do crescimento da massa salarial. Por outro lado, os estímulos monetários, de crédito e de transferências fiscais favorecem as vendas no varejo, estimulam a confiança do consumidor e amenizam os efeitos negativos da desaceleração da massa de rendimentos.

O investimento deve reagir à queda do juro real e à diminuição da incerteza, mas a elevada capacidade ociosa mundial em alguns setores evita uma retomada mais rápida desse componente da demanda.

Em resumo, a economia brasileira teve um bom desempenho nos últimos meses, após passar satisfatoriamente pelo verdadeiro teste de estresse gerado pela crise financeira internacional.

A economia brasileira deve ter um crescimento superior ao do resto do mundo em função da renovada confiança dos investidores internacionais e do seu papel no mundo (um mercado consumidor disponível). Mas o ritmo de crescimento deve arrefecer nos próximos meses, consistente com fatores locais (esgotamento de IPI, massa salarial crescendo menos e estoques recuperados) e com uma economia global que sofreu uma crise secular, cujas consequências negativas ainda não são inteiramente claras

(O Globo – 04/08/2009)

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